E maio desponta e as mães aparecem protagonizando o mês e diversas emoções, conflitos, perdas, brilhos, luto, lutas, amores, broncas, amarguras e doçuras aparecem com mais intensidade e nos coloca – a nós que somos seres de reflexão – a pensar e contemplar as belezas e desafios da maternidade.

Em tempos tão difíceis, cruéis e de tantos desconcertos, a figura da mãe com todos os atributos que sabemos e reconhecemos fica mais intenso. A mãe que vive o luto da perda de tantos filhos que ignoraram aquilo que parece ser a lei natural da vida e foram embora antes dela, a mãe que sozinha chora no seu isolamento de proteção que mais parece um ato de abandono ao coração que ama, a mãe que incansavelmente ora pelos filhos pedindo proteção, amparo e cura, a mãe que trabalha dobrado para o sustento da família, a mãe que virou professora do filho no ensino on-line mesmo sem saber por onde começar, a mãe que teve tempo em casa e percebeu, enfim, comportamentos atípicos que precisam de orientação, a mãe que chora escondido de cansaço dos afazeres do dia e que se fortalece no amor para recomeçar no dia seguinte, a mãe que não sabe o que fazer quando tudo que tem que fazer é nada, pois ela não tem o poder de tudo e isso é esmagamento de alma já que contaram pra nós que não há nada que não possamos fazer para proteger nossos filhos , que somos a lei maior sobre todas as coisas quando o nosso objeto de amor está em apuros.

Aqui, nesse conflito dos superpoderes cabe uma outra reflexão – quem disse que a vida é uma engrenagem de reflexões, pensou bem. Tanto se fala da mãe como uma heroína invencível que tendemos a nos comportar assim. E, pasmem: tentamos sim nos enfiar, mesmo que desconfortavelmente, nesse molde sociocultural. E daí, tantas frustrações, tantos medos, tantas culpas e tensões corroem nossa vida materna. Vivemos uma situação cíclica muito comum que é perceber o erro e ignorarmos o comportamento atual para irmos ao outro extremo. O de que nem é preciso tanto cuidado e amor assim, pois senão, criaremos uns tiranos mal-educados e incapazes de qualquer tipo de independência. Vamos ao extremo de achar que a vida se encarregará de cuidar de tudo e que as crianças são autossuficientes e nem precisam de tanta atenção e zelo pois já vem dotadas de tanta inteligência que vão se construir sozinhas.

Ah que crueldade conosco! Nenhuma de nós conseguiremos nem ser tão puro amor e nem tão puro descaso – pelo menos é o que se espera, para que se amenizem, no equilíbrio, as tais das dores, frustrações e culpas…

Vimos, hoje, um movimento muito intenso de abandono da maternidade como algo exclusivamente lindo, prazeroso, comovente e envolvente para uma condição de situação penosa, de muita labuta, de exclusividade exaustiva, de dificuldade, de muito trabalho e dedicação.

Ora, ora! O que fizeram conosco ou o que fizemos conosco! Nos colocamos nos extremos de uma situação em que o extremo já está comprovadamente como caminho inadequado.

Numa tentativa de conceito equilibrado a maternidade é sim penosa, mas prazerosa. É sim de muita labuta, mas de muito aprendizado e evolução para a mãe que se dispõe a perceber-se numa situação propícia ao crescimento e evolução. É sim de exaustão e insistência, mas trabalho bem feito é, também nesse caso, garantia de muito menos ou nenhum trabalho futuro com grandes reparos ou defeitos. Garantia? Quem garante o quê? Viu a armadilha da obrigação de assumir que tudo vai ser perfeito e certo e exemplar. Não há garantia! Quando se fala que o trabalho deve ser executado, feito, assumido é que, esse é o papel da mãe, do pai. Não há outra opção! E, talvez na incerteza do futuro, do resultado – como se filho fosse negócio, matemática! Oh palavra mal-usada! – Você tenha o consolo de que fez, se ocupou, se responsabilizou, se envolveu, se fez mãe em sua totalidade de amores e dissabores. E, assim, se constrói o perdão aos erros que acontecem com todas, assim, se constrói a cura para frustrações, assim, se constrói a libertação das culpas.

E assim, se alcança o equilíbrio que liberta, que orienta, que ameniza, que direciona, que dá perfeição ao imperfeito, que dá perdão ao pecador.

A questão é essa: ser mãe é, além de tudo que já se lista como obrigação, ainda é refletir o tempo todo em busca de erros transformando-os em aprendizados, é estar absolutamente atenta a cada movimento que deve ser ajustado, reajustado, promovido ou reprovado, é reconhecer naquele ser uma concessão divina para ser genial, fraterna, materna, divina e imaculada dentro do seu limite.

Assim, dia das mães, além de comemorações e “manifestações de apreço” à senhora diretora é dia de matutar sobre sua trajetória e construir, seja lá o que você precisar, para que se sentir bem, leve, comprometida, mas não abusada, envolvida e não exagerada, responsável, mas não dominadora, amorosa e não negligente… é dia de sentir-se mãe e receber sem nenhum impedimento o amor desse filho que, de tão boa mãe que tem, é tão bom filho como é.

 

 

Mariza Domingues

Professora e mãe de nascença.

Ouvi Christian Dunker, psicanalista famoso a quem admiro, dizer há alguns dias, numa palestra sobre educação em tempos de pandemia, que temos de nos preparar, pois teremos de nos REINICIAR. E fiquei cá com as teorias, experiências, ignorâncias, possibilidades pensando em como faremos isso. Como? Como reiniciar num mundo transformado, novo, diferente, renovado, alterado, talvez até ainda mais desgovernado. O que fazer no pós-pandemia e qual botão ligar para reiniciar. Será que já existe programação pronta para tal comando?

Longe de pensar em ter a resposta, o pensar sobre o tema traz algumas considerações que podem colaborar para que cada qual se reorganize, se reconecte, se realinhe… e nada de se reinventar! Reinventar não, pois se fizer isso, nega-se tudo que você já é. E todos já somos, já existimos, já nos inventamos e algumas marcas não são possíveis de apagar: a vida, as experiências, vivências, escolhas passadas e suas consequências, vontades realizadas, tratos feitos ou desfeitos… já existimos, estamos inventados há tempos e reinventar parece apagar tudo que somos. Não se iluda! Impossível! Melhor buscar uma reformulação a partir da grande invenção que é você, que é cada um de nós.

Seremos e somos carregados ou carregamos o que somos…

Piaget com sua epistemologia convergente, que reconhece o ser humano – na construção do aprendizado – como um ser biológico, emocional e social, trata de inteligência a partir de situações muito interessantes e válidas: assimilação, acomodação, adaptação e equilibração. O indivíduo que apreende uma situação e só, isso não é aprendizado. Para que o aprendizado se consolide é necessário adaptação que nada mais é – num olhar bem simplificado – do que conseguir usar o que aprendeu na vida prática nos enfrentamentos dos desafios cotidianos. E a equilibração que é todo o processo que o indivíduo faz quando se depara com uma situação-problema nova e, assim se desequilibra, mas para, assimila a situação, acomoda-a dentro de experiências anteriores e transforma a situação de forma que que consiga se adaptar e resolvê-la. E resolvê-la é vivê-la. Afinal, a vida traz a cada segundo novas situações a serem ressignificadas. E será sempre assim.

Tudo isso para lembrar que diante da nossa situação-problema: viver no mundo pós-pandemia estamos exatamente no meio do processo de desequilíbrio, necessidade de assimilação e adaptação e criação de um novo momento de equilibração.

O cenário é esse: o desequilíbrio (situação-problema) já temos, a assimilação estamos fazendo, processando ou, pelo menos, precisamos fazer, e a adaptação é necessária, quase obrigatória (e é, àqueles que querem permanecer caminhando, seguindo e não paralisados num tempo em que a pouco será o passado remoto dos dias cruéis e assustadores). O reiniciar vai ter que se dar por esse caminho: o da aprendizagem. E a aprendizagem real é essa: a da vida prática caracterizada pela nossa capacidade de adaptação, interação, criatividade, de perceber a si e os outros em seus sentimentos, de reconhecer o valor da ciência com suas hipóteses e comprovações, perceber o mundo natural ao nosso redor, coordenar de forma equilibrada corpo e mente, conseguir se expressar de forma clara, conseguir perceber-se como parte desse mundo, mas não como o mais importante e insignificante se sozinho…

A pergunta de que tipo de gente vai sair de casa quando a pandemia acabar é inevitável. Que tipo de professor vai voltar para a sala de aula? Que tipo de aluno vai voltar para a escola? Que tipo de pais deixarão seus filhos na porta das escolas? Que tipo de terapeuta atenderá as crianças e seus comportamentos atípicos? Que tipo de crianças encontraremos pelos parques? Que tipo de avós se reencontrarão com o mundo? Que tipo de consumidor estará liberto aos shoppings? Que tipo de tanta coisa teremos que nos confrontar e assimilar e acomodar e adaptar-nos? Seremos um bando de enferrujados socias!

Mas seremos os enferrujados sociais que, no desequilíbrio deixamos que o cérebro se desafiasse a aprender.

E, assim, nunca tive tanta certeza de que inteligência não é quantidade, e sim qualidade! De que a inteligência será nossa salvação! O aprender vai ser o lubrificante para nossas ferrugens sociais!

O ser inteligente há de perceber que não dá para passar por tamanha tragédia sem que nada aconteça no nosso coração, no nosso olhar para o outro e para o mundo, no nosso senso de responsabilidade coletiva, no nosso reconhecer e acolher das emoções nossas e dos outros. Não dá para passar por tudo isso sem que nossa memória registre tamanha tristeza e não manipule as informações projetando ações para o presente e futuro que mudem o foco das demandas quantitativas para demandas de amor, solidariedade, de reconhecimento, de união, de compromisso consigo e com o outro. É impossível passar por tudo isso sem inibir, filtrar pensamentos e atitudes que nos colocam no foco egoísta do mundo das vaidades e ostentações de um ter infinitamente menor que o ser.

Muitos não conseguirão! Posso ouvi-los! Triste! É verdade!

Mas e você? Pode? Quer? Não promovo um movimento egoísta ao convidá-lo a se desequilibrar, assimilar, acomodar e reequilibrar. Só penso que esse processo é particular, único, singular e individual. Cada um fará do seu jeitinho. Afinal, a aprendizagem é um processo individual e específico de cada criatura. Mas de cada um que se move a aprender e se acomoda – no sentido de harmonizar – podemos percebê-lo como exemplo, como alguém que vai voltar para o mundo pós-pandemia, vai abrir a porta e sair ofertando a ressignificação de um mundo reformulado a partir da inteligência. Não a inteligência como mero processo cerebral – conceito que nem sei como um dia aconteceu – mas a inteligência da neuroplasticidade de um indivíduo que foi capaz de adaptar-se ao meio e suas influências e ainda tirar proveito delas construindo um olhar e uma postura muito mais humana, coerente, amorosa e coletiva.

Não há ferrugem que resista a um ser humano com vontade de viver!

 

Mariza Domingues

Mãe e professora de nascença!

Em abril de 2021

 

ABA+ Inteligência Afetiva

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Esta é Isabella Olinto e, aos 18 anos, vai cursar Relações Internacionais pela   Universidade Federal de Goiás. Aluna atenta, dedicada sempre com humor inteligente e observações oportunas. Fez a prova do ENEM e obteve nota 960, graças a uma análise coerente e consistente sobre ” O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”. Para Isabella, o “tema foi bastante pertinente e necessário. As doenças neurológicas ainda enfrentam preconceito e só um mês de visibilidade no ano não é suficiente.”

Nossa jovem escritora agora planeja o futuro “como estudante de Relações Internacionais pretendo conhecer muitas culturas e ser capaz de falar diferentes línguas. Trabalhar com o que gosto e ter uma família grande também estão nos meus planos”.

É muita inteligência afetiva. Boa sorte, Isabela.

 

Origem do preconceito associado às doenças mentais

Redação para o ENEM 2021

Por Isabella Olinto

Na obra alemã “O Sofrimento do Jovem Werther”, de Johann Goethe, a personagem principal passa por problemas emocionais que colaboram para o seu suicídio. Longe da ficção, a obra literária proporcionou visibilidade para a causa das doenças mentais e casos como o retratado no livro vieram à tona. Entretanto, apesar de comum, a saúde mental fragilizada sofre com estigmas na sociedade brasileira, frutos da mentalidade conservadora da população que trata doenças neurológicas como tabu. Dessa forma, entre os fatores que contribuem para a persistência dessa conjuntura estão a falta de informação oferecida nas escolas, assim como a banalização das doenças.

Em primeiro lugar, convém ressaltar o escasso ensino sobre saúde mental, aliado ao conservadorismo da sociedade, como colaborador para a fomentação de estigmas associados às doenças neurológicas no país. Nesse sentido, Paulo Freire, expoente cientista da educação, em sua obra “Pedagogia do Oprimido”, afirma que a escola pode mudar a realidade dos alunos e ampliar seus horizontes, o que dificilmente acontece em relação ao ensino sobre saúde mental. Isso ocorre porque o sistema educacional brasileiro é baseado em técnicas tradicionais que visam o ensino limitado ao conteúdo dos livros didáticos, o que impossibilita, assim, o debate sobre doenças mentais nas salas de aula. Sob essa ótica, José Pacheco, educador português, descreveu o sistema de ensino brasileiro como ultrapassado, em que alunos do século XXI têm professores do século XX e técnicas educacionais do século XIX. Desse modo, o modelo arcaico de ensino que invisibiliza a pauta sobre doenças mentais tem como consequência a perpetuação de preconceitos sobre distúrbios neurológicos no país.

Outrossim, a banalização das doenças mentais, junto a uma mentalidade conservadora da população, é fator agravante de estigmas associados aos distúrbios no Brasil. Nesse cenário, o ensaísta equatoriano Juan Montalvo afirma que “não há nada mais duro do que a suavidade da indiferença”, frase que pode ilustrar como a ausência de preocupação com as doenças mentais pode fomentar a persistência do preconceito com o quadro. Essa situação acontece, pois, devido ao conservadorismo, as doenças neurológicas são menosprezadas e os doentes são tratados como indivíduos fracos. Dessa forma, a busca por tratamento torna-se cada vez mais escassa ao ser vista com preconceito, o que pode acarretar piora nos quadros de doenças mentais.

Em suma, o estigma associado às doenças neurológicas na sociedade brasileira tem origem no conservadorismo e precisa ser combatido. Portanto, é necessário que o Governo Federal, órgão responsável pela administração do país, crie um Plano Nacional de Combate ao Preconceito contra Doenças Mentais – o qual contará com a atuação do MEC na inserção de aulas e palestras sobre saúde mental nas escolas e na promoção de debates sobre o assunto -, por meio de um Decreto Federativo, a fim de acabar com os estigmas associados aos distúrbios mentais. Ademais, é fundamental que a mídia, como formadora de opinião, divulgue campanhas que alertem sobre a recorrência de doenças mentais, com o fito de conscientizar a população a buscar tratamento. Assim, preconceitos com o quadro do jovem Werther serão menos frequentes.

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Um dia celebraremos

Cris Alves

21 de março é o Dia Internacional da Infância e o objetivo é refletir sobre as condições em que vivem crianças do mundo inteiro e assim garantir que elas tenham assegurados direitos e oportunidades para se desenvolverem plenamente. Qualquer reflexão nesse sentido, nos leva a constatar que embora a situação tenha melhorado, e as crianças não sejam mais tratadas como “adultos em miniatura”, ainda há muito a ser feito para que essa data seja apenas de celebração.

Segundo o relatório Changing Lives in Our Lifetime, divulgado pela organização da sociedade civil Save the Children, os países que mais protegem as crianças são Singapura, Suécia, Finlândia, Noruega e Eslovênia. As nações africanas são as que oferecem as situações mais precárias. Já o Brasil, no ranking de 176 nações, está em 99º lugar no item proteção à infância. Então estamos distantes das duas realidades?

Não estamos. No Brasil, há um abismo de direitos e oportunidades que aproxima crianças brasileiras tanto dos países da Ásia e da Europa como da África. A verificação pode ser feita nas ruas com crianças acompanhadas ou não, vivendo de pequenos serviços ou de doações, sem qualquer rotina de alimentação, estudo e lazer. Certamente serão formadas para reproduzirem situações de abandono, de violência e de servidão. O outro lado pode ser identificado, em casas, escolas, parques onde vivem as crianças amparadas econômica e socialmente. Essas, apesar dos privilégios, não estão resguardadas dos entraves sociais e das limitações psicológicas e éticas de seus tutores.

Estamos então diante uma situação complexa que requer políticas públicas urgentes, mesmo sabendo que elas demandam tempo e dependem da adesão de diferentes segmentos da sociedade. Para o momento, mude o olhar para a criança, tendo ou não uma relação de afeto com ela, não a trate como propriedade, ou objeto de pouco valor, e sim como cidadã, capaz de incorporar e de também produzir comportamentos sociais a partir de percepções próprias. Isso sem esquecer das fragilidades que devem ser acolhidas e das habilidades que precisam ser estimuladas.

Se for preciso, recorra a documentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Constituição brasileira e o Estatuto da Criança e do Adolescente e se deparará com termos como “cuidados e assistência especiais”, “proteção social”, “absoluta prioridade”, “salvos de negligência, exploração e discriminação” e “meios para o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade”. Esses além de esclarecedores são bons norteadores. Leia, analise, divulgue e execute.

 

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Sandra Paro

Quando falamos sobre autismo, lembramos dos assustadores dados de diagnósticos crescentes. Além de dados sobre a prevalência do autismo no mundo todo, temos evidências que nos apontam uma maior ocorrência em meninos. 

Primeiramente, a maior ocorrência em meninos é de fato um dado e devido a isso muitos profissionais foram treinados para reconhecer clinicamente o autismo leve em meninos de modo mais evidente. O que nos leva a outro ponto; mulheres com autismo leve, essas, além de receberem diagnósticos incorretos, têm menos probabilidade de serem diagnosticadas.

Deixamos aqui muito clara a ideia de que as características do espectro não diferem entre os gêneros, mas podem apresentar-se de formas únicas nos indivíduos.

Apontar semelhanças, portanto, não as torna iguais, mas podem ajudá-las a identificar e entender habilidades comuns, dificuldades frequentes.

É comum ouvir nos relatos de mulheres autistas que escolhem ter poucos amigos ou apresentam um interesse específico por algum tema ou área. Isso parece nos muito natural aos indivíduos, diagnosticados ou não. 

A autenticidade também pode ser um forte nessas beldades. Pode se apresentar de várias maneiras: ao se comunicar, ao se vestir, por exemplo: ao preferir usar roupas confortáveis e práticas (principalmente se forem sensíveis a texturas); ou numa situação de não esconder sua opinião em público, mesmo que isso pareça inadequado. São donas de si e isso é lindo!

Em geral descrevem-se como ansiosas, mas… que mulher não o é? E apesar da sua idade muitas vezes vai ser considerada como imatura, ou justiceira. Mostrar lados diferentes da sua personalidade em ambientes diferentes poderá ocorrer, é a vida! São as regras do jogo!

Podem sentir-se nervosas em ambientes em que sua participação social é solicitada, quem nunca? E podem apresentar apego em rotinas e rituais. Os interesses das mulheres com autismo podem ser intensos e seguir diferentes conjuntos de temas.  Uma pesquisa revelou que elas têm um grande interesse por literatura, artes, animais, ativismo ambiental e temas que se relacionam com esses. Ah, e é claro, com o tempo os interesses vão mudando, como tudo na vida!

Simon Baron- Cohen e Sally Wheelwrigh, têm um estudo e nele relataram que “as mulheres têm mais probabilidade de desfrutar de amizades íntimas e empáticas de apoio, de gostar e se interessar pelas pessoas; para desfrutar da interação com os outros para seu próprio bem; e considerar as amizades importantes”.

 Mulheres com autismo leve podem sentir mais dificuldades em fazer amizades porque os relacionamentos femininos são frequentemente baseados em trocas emocionais e sociais diferenciadas. 

Elas vivem em todos os países, são de diversas culturas, apresentam desafios para viver em sociedade como qualquer mulher, seus dons as tornam ativistas, especialistas, artistas, mães e tudo mais o que elas desejarem.

 

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De uma a um milhão
Por Cris Alves
O Dia Internacional da Mulher é sempre lembrado pelas lutas femininas. São muitas, são antigas e para entendê-las basta recorrer à História do país e a seus personagens.
Como Chiquinha Gonzaga que ultrapassou os espaços femininos de uma época, lidou com a maldição familiar e as condenações morais e sociais, pois não se submeteu a maridos autoritários e infiéis. Ainda conseguiu viver de música e, em 1885, tornou-se a primeira maestrina brasileira. Tudo isso em um país que até 1943, mulheres só trabalhavam com a autorização dos respectivos maridos, que só puderam transitar em qualquer esporte e ingressar nas Foças Armadas no fim da década de 1970.
Outro personagem significativo, foi Getúlio Vargas que garantiu direitos importantes. Como o do voto e também a proibição de ser demitida por estar grávida juntamente com a licença maternidade de um mês. Outra medida expressiva foi a descriminalização dos terreiros de candomblé, religião de matriz africana, liderada por Mães de Santo e a oficialização de uma Santa, no lugar de Santo, como padroeira do país. Então a Era Vargas, independente do populismo do presidente, contribuiu, mesmo que de forma embrionária, para a visibilidade feminina no Brasil.
Em 1985, foi criada a primeira Delegacia da Mulher, que oferecia atendimento especializado a vítimas de violência doméstica e sexual. Foi nessa época que começou a luta de outra personagem, a farmacêutica Maria da Penha, que sobreviveu a duas tentativas de homicídio pelo marido, uma das quais deixou-a paraplégica. Depois das sucessivas agressões, ela passou a brigar por justiça, o que resultou na Lei 11.340 de 2006, que leva o nome dela e que visa proteger a mulher da violência doméstica e familiar. Em 2015, foi aprovada a Lei do Feminicídio dando continuidade à política afirmativa, iniciada com a lei Maria da Penha.
“Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”, estabeleceu o artigo 5º da Constituição Federal, promulgada no dia 5 de outubro de 1988, o que parece óbvio para os tempos atuais, é outro marco das conquistas femininas. A Assembleia Constituinte contava com apenas 26 mulheres entre os 559 parlamentares, mas foram criadas comissões que debateram com mulheres representantes de vários setores da sociedade, quais direitos a nova Carta deveria contemplar. Assim trabalhadoras domésticas conquistaram direitos previdenciários, a licença maternidade foi estendida para 180 dias, mulheres do campo passaram a ter direito à titularidade da terra. Neste momento ficou evidente que a luta não era mais de poucas e que a causa interessava a toda sociedade.
Assim chegamos a 2021, os movimentos sociais em defesa da mulher estão fortalecidos e permeiam todas as idades e classes sociais. A maternidade não é o único caminho e não há campo profissional que rejeite as mulheres e, ainda em pandemia, encerramos nossa reflexão com a história de Jaqueline Góes, negra e nordestina, que liderou o sequenciamento do genoma do Coronavírus no Brasil.
Hoje oito de março, lembre-se da trajetórias de mulheres, famosas e anônimas, que encararam as mais diversas causas e venceram, mas não totalmente. Façamos a nossa parte.

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Por que não deveríamos usar o termo “Asperger” para referir-se a um dos níveis do autismo?

 

Sandra Paro

 

A princípio, quem foi “Asperger”? Hans Asperger (1906-1980) foi um médico austríaco que deu o nome à síndrome, pois foi o primeiro a descrever o transtorno do espectro autista, em 1944. O médico observava crianças com falta de empatia, conversação unilateral, movimentos descoordenados, hiperfoco, ou capacidade de detalhamento sobre um tema específico. Foi ele também que apontou haver uma predominância desse quadro em meninos.

A Síndrome de Asperger foi incorporada ao Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais – DSM-4, em 1994, descrita como um subtipo dos transtornos globais do desenvolvimento

O DSM-5 já havia dispensado o nome síndrome de “Asperger”, substituindo o termo por Nível I do TEA (Transtorno do Espectro Autista), considerado um quadro mais leve e funcional do espectro do autismo.

O Nível I pode ser mais difícil de ser diagnosticado por não ser notado o atraso intelectual e em alguns casos, atraso na fala, a criança inclusive pode apresentar vocabulário amplo e rebuscado.  Já os principais desafios incluem dificuldades em abstrair, com relações de amizade, problemas sensoriais, adaptação à novas rotinas, entre outras. O espectro é amplo e dada sua singularidade, os sintomas que podem estar presentes em um indivíduo não são regra para outro indivíduo.

Ainda sobre o termo “Asperger” é comum encontrarmos em redes sociais e nos movimentos de neurodiversos com maior frequência. Eles se referem a si mesmos como “Aspies”, alguns meios de comunicação apelidaram a síndrome de “síndrome geek” e afirmam ser o Vale do Silício um dos locais onde há a maior concentração de “Aspies” do mundo.

Explicações a parte sobre as características desse nível do espectro, voltemos ao nosso ponto que é o porquê não deveríamos usar o termo “Asperger”. Não só porque a nomenclatura oficial e científica o recomenda, porque a partir desse documento, que reuniu todos os transtornos que estavam dentro do espectro do autismo num só diagnóstico: TEA, mas porque, segundo a revista científica Molecular Autism, Hans Asperger, tinha ligações com programas nazistas e cooperou com o regime enviando crianças com deficiência à morte. 

Historicamente há especulações sobre o Partido Nazista e seu esforço para eliminar crianças com deficiências, já que eram considerados uma ameaça à pureza genética ariana, segundo o líder nazista. 

Segundo o livro Asperger’s Children: The Origins of Autism in Nazi Vienna (“Crianças de Asperger: As Origens do Autismo na Viena Nazista”, em tradução livre), o médico, que já deu nome à Síndrome, teria encaminhado dezenas de crianças para uma clínica chamada ‘Am Spiegelgrund’, em Viena, onde médicos fizeram experiências com elas, levando as a morte. 

A historiadora Edith Sheffer, autora do livro em questão, visitou arquivos do governo de Viena, bem preservados, que garantiam a participação de Asperger no partido nazista, embora ele não fosse membro. E ainda conferiu registros do próprio médico que descreviam crianças com deficiências e condições psiquiátricas em termos muito mais negativos do que seus colegas faziam. Gradativamente Asperger modificou sua descrição sobre as crianças com autismo: em 1938, “grupo de crianças bem caracterizado”, três anos mais tarde: “crianças anormais” e em 1944: “fora do organismo maior”. Depois da guerra, Asperger declarou sua opinião sobre o programa de eutanásia naquele período; “totalmente desumano”. O que vem dividindo opiniões sobre o médico e a sua contribuição na história do autismo. 

A autora do livro, a historiadora Sheffer, acredita que acabar com o uso do termo “Asperger” é imprescindível, mas outros garantem que isso poderia apagar essas lições do passado, que não devem ser ignoradas, aprendemos com o passado.

E você, como pensa? Se ainda não tem uma opinião e desejar conhecer a obra de Sheffer, segue a indicação: Crianças de Asperger – As Origens do autismo na Viena Nazista – Autora: Edith Sheffer – Tradução de Alessandra Bonrruquer – Editora Record,2019.

ABA+ Inteligência Afetiva 

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Por Mariza Domingues

Criança é especial. Todas são. Sim. Criança é gente, é ser especial, singular, único. E não há medidor que seja usado para se referir às crianças tentando criar superioridades ou inferioridades entre elas que possamos interpretar como justo, coerente e adequado. É ser especial e pronto. Cada uma com seu “jeitinho” único se assemelha a todas as outras na importância.

Quando me deparo com segregações construídas a partir da singularidade de cada criança, me dá uma tristeza. Quando ainda vemos a sociedade olhar para crianças com necessidades especiais, com aparência física diferente, com aprendizado diferenciado, com habilidades alteradas por questão biológica, ambiental, genética ou psicológica de forma excludente é desumano, é imoral, é não ter amor ao próximo. E é inaceitável!

Recusar, rejeitar, afastar, separar as crianças com condições especiais não é uma possibilidade. E, pensar em tirar delas a opção de interagir com outras crianças, outras pessoas e com o próprio mundo é muita pretensão de achar-se tão superior e exclusivo no mundo. Pois não é! O mundo é de todos, é diversificado, é múltiplo, complexo, é coletivo, é conjunto e não há outra opção. É o que é.

Quantas histórias e lutas ilustram a busca pelo respeito às crianças com algum tipo de situação específica, seja física, motora, psicológica, de aprendizagem ou qualquer outra. Não se pode negar essa condição de ser humano a uma criança. As crianças estão desprovidas de conceitos sociais que segregam, que diferenciam. Elas só querem viver, brincar, aprender, ser. E isso é direito.

Sempre penso nos pais quando o assunto é discriminação contra crianças com necessidades especiais, pois quando alguém decide ter filho e isso acontece, esse ser é sim a criatura mais importante do universo para nós pais e ainda mais: ela é nossa responsabilidade e parece piegas, mas o que a gente mais quer é que ela possa ser feliz, ser parte do mundo, apropriar-se do mundo, viver no mundo e sentir-se parte dele de forma segura e saudável. Ter um filho rejeitado pela sociedade parece ser dor latente, ferida aberta, chagas como as de Cristo sangrando inocentemente. É muito doloroso. Por mais que os pais possam ter construído uma consciência da importância de seu filho no mundo, dói, comove, irrita, entristece, fere.

Faça o exercício! Treine empatia! Coloque-se no lugar do outro! Sinta!

Algumas situações surgem e nos comovem. Ouvir algo como “alunos com deficiência devem ser separados dos melhores”, “educação inclusiva nivela por baixo” é de um impacto desastroso e irresponsável vindo de alguém que é vorazmente ouvido e aceito através das mídias. É preciso ter cuidado com o que se fala já que não se tem cuidado com o que se sente. Nunca usaria aqui qualquer valor de juízo político. Sinceramente, seria menor, é menor do que falar de crianças livres, amadas, essenciais, importantes, especiais e IGUAIS.

A educação inclusiva é uma conquista! É um passo para uma sociedade que acomoda diferenças em vez de excluí-las! É ofertar aceitação em vez de acusação e recusa. A educação inclusiva ainda precisa de vencer duras batalhas, mas já conquista soldados. São tantos professores, coordenadores, diretores, pais que se mantinham na defensiva lá na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 dizendo que não estavam preparados para a educação inclusiva e que, hoje, descobriram que sempre estiveram prontos, pois não há nenhuma metodologia, teoria, treinamento que nos prepare mais do que o amor e o respeito. Esse tem sido o guia para a educação inclusiva daqueles que querem fazê-la com todos os anexos importantíssimos produzidos ao longo dos anos no plano da teoria, do pensamento científico, do estudo e observação. Não ignoremos isso.

Façamos a doçura do amor prevalecer no descompasso da realidade. Eu, nesse momento, uma vontade de esbravejar, gritar, repudiar e negar os que declaradamente se mostram contra crianças e famílias que, de tão especiais, me faz recuar nesse sentimento menor e dar preferência a convidá-los ao amor. Olhar para cada criança e cada pessoa que se dedica a cuidar dela e amá-las. Esses valem a pena!

Contemplemos o belo! Exaltemos os que amam e se dedicam ao bem! Vamos escolher o amor! E encolher o ódio.

Diga sim, mãe!

“Um ano perdido!”
Ouvir isso traz de imediato, argumentação contrária. “É óbvio que não!”
E o desabafo da mãe angustiada soa como contravenção à Lei Divina. Elencam-se motivos para o exercício de gratidão ao ano vivido, buscam-se fatos como provas vivas das bençãos recebidas em meio à pandemia, e, ao final, fecha-se com a constatação óbvia de que estar vivo já faz o ano não ter sido em vão.
E tudo isso é indiscutivelmente verdadeiro, mas não é o objeto que ocupa meu pensamento agora.
Vejo você, mãe.
Você que conhece a necessidade que seu filho tinha da terapia que não foi possível continuar, que vibrava com cada conquista relatada pela professora na escola, e se viu com ele em casa, tentando sobreviver ao exercício diário de equilibrar-se entre a lucidez e o caos. Você que viu avanços sendo perdidos pouco a pouco, num eterno recomeçar. E te vejo sem julgar, porque não ocupo o seu lugar. Ele é seu. Apenas você é capaz de sentir os efeitos do que viveu. Te vejo com amor, e te convido a um exercício.
Encontre um espelho. Sim, um espelho. E nele, encontre o único olhar que conhece o que se passa na sua alma. Olhe firme. Não desvie o olhar. Sinta as sensações que esse encontro traz para o corpo. Permita-se sentir. Se você vê uma menina, pegue-a no colo, dê o acalento que ela precisa. Diga a ela “eu vejo você”! Ela vive, frágil, dentro da guerreira que a vinda do seu filho criou. Devagar, olhe dentro dos seus olhos e diga SIM a essa mãe, a essa mulher que luta, que erra, que insiste, que desiste, que recomeça, que se reinventa. E está tudo certo. E seu sentir é legítimo. Acolha. Para amar, é necessário beber da fonte do autoamor. Afinal, oferecemos daquilo que estamos repletos. Abarrote-se de amor!
Quanto ao tempo, abrace o que está chegando a cada novo minuto. O que foi, já não está ao alcance. Então está tudo certo. Do jeito que foi.
Feliz momento novo. Feliz dia novo. Feliz de novo.

Prefixos melhores virão
Cris Alves
Enfim o ano de 2020 acabou. Sem dúvidas, o mais atípico e anormal de todos. Ano em que mudamos bruscamente de rotina, adaptamos aos equipamentos de proteção individual e sofridamente contabilizamos perdas. As dificuldades e as complicações foram tantas que manifestações de otimismo ou votos de prosperidade podem não ser encorajadores. Ainda mais que as perspectivas para o novo ano não são otimistas. Apesar disso ou por causa disso, 2021 exigirá de nós, um plano, uma estratégia.
Mas antes de qualquer projeto, voltemos a 2020 e seus ensinamentos. Primeiro, nos certificamos de que não temos controle sobre muita coisa, sobre quase tudo, eu diria. Pense nisso sempre que estiver sofrendo por antecipação. Depois aprendemos que podemos viver com menos bens de consumo. Esse até o planeta agradece. Mais um, descobrimos que ainda podemos e precisamos aprender muito, que há uma infinidade de novidades a serem desvendadas. Então não vale dizer que não consegue fazer isso ou aquilo e também não vale categorizar as pessoas em jovem demais ou velhas demais para encarar um desafio. Ainda, lembramos que a existência do outro é igualmente importante. Trabalhemos para que essa não seja esquecida.
E agora comecemos 2021 cientes de que a vida é cheia de imprevistos, uns simples e outros nem tanto e que são eles que nos qualificam para os embates que certamente virão. Então redefina as metas, desengavete os sonhos, aceite os empurrões da vida. Para isso, opte pelo trivial, pelo o que é possível e quando estiver no meio do turbilhão, pare, reflita e decida o que fará primeiro. Avalie a necessidade de se envolver em determinadas situações, ou seja, preserve a sua paz, aliás a serenidade pode ser uma meta. A delicadeza também.
Por fim, ativemos nossa capacidade de nos entristecermos, de nos alegrarmos, de nos indignarmos e de nos comovermos. É isso que garante a nossa humanidade e, consequentemente, a nossa boa convivência em sociedade. E que apesar das adversidades e dos dramas e por causa das conquistas, 2021 seja inesquecível.
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