Prefixos melhores virão
Cris Alves
Enfim o ano de 2020 acabou. Sem dúvidas, o mais atípico e anormal de todos. Ano em que mudamos bruscamente de rotina, adaptamos aos equipamentos de proteção individual e sofridamente contabilizamos perdas. As dificuldades e as complicações foram tantas que manifestações de otimismo ou votos de prosperidade podem não ser encorajadores. Ainda mais que as perspectivas para o novo ano não são otimistas. Apesar disso ou por causa disso, 2021 exigirá de nós, um plano, uma estratégia.
Mas antes de qualquer projeto, voltemos a 2020 e seus ensinamentos. Primeiro, nos certificamos de que não temos controle sobre muita coisa, sobre quase tudo, eu diria. Pense nisso sempre que estiver sofrendo por antecipação. Depois aprendemos que podemos viver com menos bens de consumo. Esse até o planeta agradece. Mais um, descobrimos que ainda podemos e precisamos aprender muito, que há uma infinidade de novidades a serem desvendadas. Então não vale dizer que não consegue fazer isso ou aquilo e também não vale categorizar as pessoas em jovem demais ou velhas demais para encarar um desafio. Ainda, lembramos que a existência do outro é igualmente importante. Trabalhemos para que essa não seja esquecida.
E agora comecemos 2021 cientes de que a vida é cheia de imprevistos, uns simples e outros nem tanto e que são eles que nos qualificam para os embates que certamente virão. Então redefina as metas, desengavete os sonhos, aceite os empurrões da vida. Para isso, opte pelo trivial, pelo o que é possível e quando estiver no meio do turbilhão, pare, reflita e decida o que fará primeiro. Avalie a necessidade de se envolver em determinadas situações, ou seja, preserve a sua paz, aliás a serenidade pode ser uma meta. A delicadeza também.
Por fim, ativemos nossa capacidade de nos entristecermos, de nos alegrarmos, de nos indignarmos e de nos comovermos. É isso que garante a nossa humanidade e, consequentemente, a nossa boa convivência em sociedade. E que apesar das adversidades e dos dramas e por causa das conquistas, 2021 seja inesquecível.
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O Natal pode ser uma época mágica, mas se alguém da sua família está no espectro, há uma pressão extra para acertar. Estas dicas simples podem ajudar:

  • Tenha um local designado para relaxar e se retirar, especialmente se você planeja receber convidados. Você pode até mesmo chamá-lo como uma ‘sala silenciosa’.
  • Seja claro sobre quando amigos e familiares podem visitá-lo. Faça um cronograma e cole-o na geladeira ou em algum lugar de fácil acesso.
  • Use os calendários do advento a seu favor – uma contagem regressiva pode ser muito benéfica para alertar as pessoas sobre os próximos eventos.
  • Como alternativa, que tal decorar uma ‘sala de Natal’ designada para limitar o impacto das mudanças em outras salas da casa.
  • Olhe o mundo através dos olhos da pessoa que você ama – de que aspectos do Natal ela gosta? Não há regras – o Natal pode ser o que funciona para você e sua família.
  • Passe algum tempo livre de Natal, longe das festividades – isso pode ser útil para reduzir a ansiedade. Um passeio tranquilo no parque ou alimentar os patos pode ajudar, se isso é o que você normalmente faz para relaxar.
  • O Papai Noel pode causar ansiedade. Prepare seu ente querido mostrando fotos, ou talvez o Papai Noel pudesse deixar os presentes na casa de um parente.
  • Os jantares de Natal podem ser individuais, por isso, siga o que sabe que será popular. Quem disse que tem que ser peru assado?
  • No dia de Natal, tente manter uma rotina que se adapte à sua família. Se precisar fazer mudanças, prepare-se com antecedência, usando fotos ou histórias sociais para explicar o que está acontecendo.
  • O Natal é para se divertir. É a sua hora também, então sempre peça ajuda à família e aos amigos se precisar.

Desejamos a todos um Feliz Natal e um Feliz Ano Novo!

Disponível em: https://www.autismtogether.co.uk

 

ESCOLA PRA QUÊ?

 

Por Mariza Domingues

 

O retorno às aulas presenciais, nesse ano tão difícil, momento de pandemia da Covid-19, não poderia destoar e vir sem conflitos, reflexões e dramas. E, claro, sem aprendizados sobre a vida que se mostra um turbilhão de efeitos e causas que estão acima de nossa capacidade de dominar o mundo em que vivemos – descoberta como rasa ilusão!

Obviamente, a questão da saúde foi colocada em primeiro lugar e cada família tem uma história, uma realidade doméstica, de saúde, um contexto, um sentimento, tudo muito específico e realmente especial. E é aqui que o tom da decisão se define como tão particular quanto a história de cada um. Assim, nem tente fazer julgamentos, tentar entender a decisão, nem tente se achar na condição do palpite ou da opinião. Nem tente!

É decisão que vai muito além da técnica. A proteção à saúde e a vida é pauta inicial, mas ela não está sozinha. Ela é a ponta do iceberg que entranha mar adentro e possui uma profundeza de dores, amores, dúvidas e certezas que nenhuma criatura é capaz de conhecer claramente. Nem quem toma a decisão de levar ou de não levar o filho de volta para a escola, nas aulas presenciais, é dotado de certeza absoluta e convicção plena da melhor decisão. É muito difícil. Há de se assumir muitos riscos. Pais são responsáveis pelos filhos e a afetividade e responsabilidade disso é extensa e arriscada. Ninguém sabe se está tomando a melhor decisão. Cada história torna-se justificativa para cada escolha. E cada história é única, cada família é única, cada criança é única e, assim, cada decisão é mandamento sagrado, cravado na pedra de cada lar. Assim, nem tente! Nem tente julgar!

A volta às aulas presenciais é assunto de cabeceira, ultimamente, de muitos pais, crianças e adolescentes, diretores, professores, pediatras, médicos. E, provavelmente continuará sendo em 2021. Todos em busca de uma resposta que não se alcança matematicamente como os ditos de protocolo com somas e multiplicações de casos de contágio, leitos hospitalares ocupados, taxa de contaminação, casos de mortes, estabilidade e tantos mais. O assunto vai além.

E, a partir de agora, com todo respeito e zelo com o trabalho de quem organiza protocolos, assiste à doentes, estuda os números da Covid, analisa e constrói dados importantíssimos para que decisões sejam possíveis dentro de uma razoável lógica, gostaria de olhar para o estudante, para a criança e adolescente que, hoje, tem a possibilidade de voltar, presencialmente, à escola e precisa decidir-se. Olhar para esse estudante como ser único, com sentimentos e histórias muito exclusivas, construídas a seu modo singular de ser importante nesse universo. Pensando bem, manterei contato com a ciência, afinal, para educadores dedicados, estudados e atentos, há sempre a pauta de basear sua atuação em condições cientificamente comprovadas, experimentadas e assertivas. E, aqui incluo aos professores, os psicólogos, coordenadores e psicopedagogos que estão atuando nesse processo.

No momento em que a possibilidade de retorno às aulas presenciais se confirmou, o antagonismo tornou-se evidente. Ouvia-se de “Graças a Deus! ” à “Deus me livre! ”, de “Não vejo a hora de voltar! ” à “Nunca voltaria!”. E aqui, parto a uma convocação a pensar em todas as situações adversas pelas quais passamos nos últimos meses e fomos uma a uma experimentando, acertando, errando, recuando, progredindo e cada um a seu modo construindo seus aprendizados a partir de derrotas e conquistas. Essa decisão de voltar ou não às aulas presenciais é mais uma. E não tem como ignorar. Ainda mais sendo tão séria. É chegado o tempo da decisão. E, de novo, na ressalva de respeito aos setores importantíssimos envolvidos nisso, me apego ao ser humano, ao aluno, ao ser pedagógico. Talvez, seja critério de desempate na decisão a tomar. Talvez, nunca se tomará a decisão da volta pautado no valor e proteção à vida. Talvez, toma-se a decisão da volta pautados em percepções que nunca serão compreendidas pelos que estão fora dela. Nem tente!

As crianças com necessidades educativas especiais são um caso importante para se observar. Essas crianças, ainda mais, necessitam de uma rotina organizada e funcional para sua condição para se sentirem seguras e mais dispostas ao aprendizado. Após a ruptura grosseira de rotina que tiveram a partir do fechamento das escolas, passaram por um calvário de adaptações e readaptações para se construir um novo formato de vida possível à reinserção dos processos pedagógicos em seus cotidianos. Com o pouco tempo de dias letivos restantes, muitos pais e terapeutas entenderam agressivo e ineficiente o retorno dessas crianças, diante da dificuldade se construir rapidamente novos hábitos, mesmo sendo as crianças tão adaptáveis. Daí, como questionar essa situação?

Outros pais, principalmente de uma faixa etária que beira a pré-adolescência percebeu seus filhos tão impactados que comentam não os reconhecer, às vezes, em alguns comportamentos e decisões. Adjetivos como “rabugento”, “raivoso”, “distante”, “dormente” foram ouvidos nas descrições de crianças feitas por pais que entenderam o retorno ao presencial tão expressivo e urgente para resgatar a alegria, a vitalidade emocional, a capacidade de enfrentamento, do desafiar-se, do conquistar. Entenderam que isso é maior, é essencial, hoje.

O essencial, nunca, foi tão relativo. Por isso, insisto: não tente julgar o outro e suas decisões quanto ao retorno escolar presencial ou a manutenção das aulas on-line. Cada um sabe o que viveu e vive na clausura, no cotidiano, no anonimato da solidão com seu filho que, observado, partia o coração de muitos pais que percebiam uma angústia maior que o mundo, uma incapacidade de fazer algo que transformasse a saudade em expectativa, a solidão em zelo, o isolamento em noção do coletivo. Nem todos conseguiram e mesmo assim, todos são fortes.

Vivemos algo sem precedente! Não tem receita! Nem fórmula matemática, nem regras que resolvam. É um dia de cada vez e a força de manter-se vivo e experimentar o que o momento nos ensinou de um jeito muito forte: somos gente! E toda gente, só é gente porque sente. E sentimos! Sentimos tantas coisas que, em muitos momentos, pensamos que isso tudo não cabe em nós, mas cabe, pois isso tudo é o que realmente somos.

Impossível deixar sem menção àquelas crianças que lindamente descobriram o modo on-line de ser. Foi um movimento tão lindo ver as crianças se desenvolvendo em frete a telas e câmeras, abrindo e fechando microfones, construindo protocolos de comportamento on-line e absorvendo conhecimento a partir de esforços coletivos e amorosos que marcam essa relação pais-professores-alunos. Foi incrível! Um mundo paralelo foi criado e fez tanta gente feliz. Vale observar os tímidos que se sentiram tão seguros que se tornaram destaques. Na intimidade da câmera fechada, participou, falou, questionou, se expôs, mesmo achando estar escondido e cresceu. Tem preço isso? Não! Evolução, revolução, interação e desenvolvimento!

Mas, e os que não se adaptaram ao universo on-line? Foi traumático, foi ofensivo, foi desestimulante. E, ainda assim, aprenderam que nem tudo é do seu jeito, nem tudo se move para exclusivamente fazer você feliz. Esse aluno, mesmo assim, fez, lutou, tentou e se dispôs. Aprendeu! Aprendeu sobre a vida! Outros ficaram pelo caminho, desistiram e equipes de resgates tiveram que socorrê-los. A escola, a família, os terapeutas são equipes de luz e amor nesse momento. Feliz quem os teve mesmo estando em situação complicada. E, para esses alunos, o retorno foi “a vida voltando” como disse Clarice Lispector em um de seus contos. A vida voltou, as possibilidades voltaram, a existência voltou. Muitos pais usaram esse critério para decidir pelo retorno presencial. Muitas crianças voltaram e, mesmo diante de uma escola completamente modificada pela nova realidade e seus protocolos mil, se sentiu em casa.

A escola está diferente, mas ainda assim eu quero a escola. Essa é a frase que ecoa pelos portões, pátios e salas, agora menos habitados, mas não menos calorosos.

E, então, escola pra quê?

Escola para que o mundo seja mundo – on-line ou presencial – escola para que o consolo chegue, para que o afeto permaneça, escola para que a interação aconteça na necessidade mais instintiva do ser humano: relacionar-se com outro ser humano. Escola para que o mundo fique colorido e essas crianças possam alimentar sonhos. Observo que adolescente se anima quando sonha, quando projeta o futuro, quando se sente parte do mundo e a escola oferece isso. Escola para brincar no recreio, para arrumar encrenca com o colega e resolver em espaço neutro, mas monitorado. Escola para que se aproprie do desconhecido e se ache a pessoa mais incrível do mundo por isso; escola para que surjam cientistas capazes de criar uma vacina para uma doença malvada em poucos meses quando alguém sugeria meia década; escola para que políticas públicas pautadas em senso do coletivo e empatia sejam criadas; escola para que as diferenças agreguem às pessoas o hábito de ser respeitoso; escola para que se tenha médicos e enfermeiros capazes de assumir o compromisso feito; escola para que professores tenham vida, para que seu afeto afete tanto o outro que ele se assuste com a capacidade que tem.

Esse momento inusitado fez com que a sociedade observasse, percebesse a escola e os professores e o processo educacional. Espero, verdadeiramente que a valorização, a singularidade, a interação, a afetividade da escola tenha superado suas limitações e promova a educação e seus profissionais a um patamar de respeito, reconhecimento e confiança.

E, ainda em licença para mais uma manifestação muito pessoal, como professora e mãe, recuso o discurso do “ano perdido”. Nós trabalhamos muito esse não, rompemos barreiras, desafiamos nossa capacidade e fizemos muito sim. Não ignoro as limitações, dificuldades, pois elas realmente existem, mas elas não impediram de que boas coisas acontecessem: aprendizados, convivências, superações…. Nós precisamos dar ar de vitória para o fim desse ano. Estamos vivos! Aprendemos muito! Sofremos horrores, caminhamos em campo minado, mas estamos dignamente finalizando o ano letivo. O fato de estarmos exaustos fisicamente, exaustos emocionalmente, não pode nos impedir de ver nossas conquistas. Fomos muito valentes! E temos de estar orgulhosos!

Meu reconhecimento aos professores, alunos, coordenadores, diretores e colaboradores das escolas! Povo bom!

Então, escola pra quê?

Escola para que tenha pão, àquele que tem fome.

 

P.S.: Numa escrita, não cabe o mundo inteiro que é esse momento.

 

Mariza Domingues, professora e mãe de nascença.

 

 

ABA+ Inteligência Afetiva

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Cris Alves*

 

Em décadas passadas, qualquer orientação sobre sexualidade infantil era vista como um incentivo à iniciação sexual. Hoje, segundo Datafolha, 54% da população já não pensa assim e entende que o assunto deve ser tratado pela família juntamente com a escola.  Apesar da evidente mudança de mentalidade, a educação sexual ainda gera desconforto e setores conservadores da sociedade, em especial políticos e religiosos, têm se esforçado para privar crianças e adolescentes de informações importantes que lhes garantiriam além de um desenvolvimento humano pleno, a proteção contra abusos de diferentes níveis.

Como o que aconteceu com uma menina de dez anos que engravidou após ser estuprada pelo tio, como o que condenou um jogador de futebol por participar de um estupro coletivo na Itália ou como o que inocentou o estuprador da influenciadora digital Mariana Ferrer sob a alegação de que não havia provas suficientes para condená-lo.  Se considerarmos, os números recentes, mais de 66 mil mulheres passaram pela mesma situação, e ao analisarmos os desdobramentos fica evidente que apesar de difícil ou desagradável, tratar do assunto, é absolutamente necessário.

Tanto os episódios a que tivemos acesso, como as estatísticas, indicam que crimes sexuais ocorrem em qualquer idade e em qualquer classe social e que o indivíduo capaz de realizar tal barbaridade não apresenta um perfil definido. Como nos episódios relatados, pode ser um familiar ou alguém de confiança da vítima, pode ser uma figura pública   com carreira solidificada ou pode ser um desconhecido em ambiente lotado.

Os episódios mostram ainda como as vítimas são tratadas. Todas, inclusive crianças, passam por constrangimentos como ter a conduta questionada e também são coagidas para desistirem da denúncia. Outras tantas não recebem apoio nem dos familiares. Por que isso acontece?

Porque vivemos em uma sociedade que trata as mulheres como objetos e que as responsabiliza pelo ocorrido e que tolera e até valoriza o assédio e muitas vezes protege o agressor. É o que chamamos de cultura do estupro, a qual devemos romper e para isso temos que admitir a existência desse comportamento que normaliza e perpetua a violência e condena meninas e mulheres a uma vida de traumas, revoltas e sofrimento.

Estupradores precisam ser punidos. Eles precisam saber que a pena inicial é de seis a dez anos de prisão, e que particularidades como a idade da vítima e o número de pessoas envolvidas na agressão podem aumentar a punição original em até dois terços. Para isso, precisam ser denunciados por vítimas que foram acolhidas pela família, pela sociedade e pela justiça.

Mulheres precisam saber dos seus direitos. Precisam saber que a Lei Maria da Penha garante proteção policial, exame de corpo de delito e distanciamento entre acusado e vítima; que há outra lei importantíssima, mas pouco conhecida, a do Minuto Seguinte que oferece atendimento imediato pelo SUS mesmo antes da vítima fazer boletim de ocorrência. Garante ainda amparo psicológico, exames preventivos de Doenças Sexualmente Transmissíveis e facilidade do registro de ocorrência.

Crianças precisam ser ensinadas. Elas precisam saber sobre higiene e anatomia e que não podem ser tocadas em determinadas partes do corpo e que devem reagir com gritos e empurrões. É preciso que saibam que carinho expressa amor e   não pode ser feito em segredo e que qualquer ação obscura ou constrangedora deve ser relatada a um adulto de confiança.

Por fim, pais e mães precisam colocar o assunto no seu projeto de educação. Todos precisam aceitar que a criança, menino ou menina, é vulnerável e que os riscos estão nos mais inesperados lugares como escolas, igrejas, casas de familiares e amigos. A educação sexual em casa e na escola, previne abusos, favorece a autonomia e contribui para a realização pessoal.

ABA+ Inteligência Afetiva

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Por Sandra Paro

De modo recorrente observamos memes e posts engraçados nas redes sociais, que tratam de como foi a infância dos mais velhos, pais, tios e até mesmo avós modernos são capazes de lembrar e até rir, em alguns casos. A maior parte desses memes têm como tema a punição, como reguladora das ações e formadora do caráter das crianças.

Abaixo um exemplo de como esse tipo de argumento era, e ainda é, uma maneira de explicar como apanhar e ser criado numa atmosfera de vergonha, culpa e dor era comum. Um tipo de comportamento que não representa mais essa sociedade, ou não deveria representar, já que hoje não temos mais adultos como modelo de submissão e essa é uma grande mudança comportamental.

Fonte: Google imagens

Hoje, o modelo familiar mudou, mas isso não deve explicar os problemas que enfrentamos na educação das crianças, em comparação aos “velhos tempos”. Não é porque a criança apanhou que se tornou um adulto de caráter respeitável e nem é porque a criança tem mãe solteira que ela não o será.

O que devemos nos lembrar recorrentemente é que as crianças seguem os exemplos que observam ao seu redor. O comportamento da criança é modelado pelo que ela aprende com o ambiente e com as pessoas que estão nele. Já observou que quando o pai fala um palavrão, a criança em dado momento repete? Então fiquem atentos, as crianças que vivem em um ambiente respeitoso, são respeitosas e quando são tratadas com dignidade e respeito também serão capazes de tratar com dignidade e respeito.

A liderança e a orientação por parte do adulto são muito importantes, além do que já explanamos acima, elas precisam de um ambiente de gentileza e firmeza, devem saber que são crianças e que devem ser orientadas pelos pais, mas também não é certo envolvê-las num ambiente de culpa, vergonha e dor.

O que observamos facilmente hoje na sociedade são crianças que não têm oportunidade de desenvolver a confiança em sua capacidade de lidar com os altos e baixos da vida, precisamos oferecer mais oportunidades para que eles aprendam autonomia e responsabilidade. É nesse ponto que consideramos as habilidades sociais e de vida valiosas, somadas a um ambiente de gentileza, firmeza, dignidade e respeito.

Esse conjunto de fatores aparentemente simples pode ajudar a não tornarmos as crianças “receptores dependentes”, que manipularão as pessoas em seu favor. O que as crianças, os filhos precisam é ter suas energias e inteligência para o desenvolvimento da percepção de que são pessoas capazes e que possuem as habilidades necessárias para o convívio social e para o estilo de vida da família em nossa sociedade.

Ser capaz, reconhecer-se como importante, ter a noção de que as suas atitudes influenciam a sua vida, entender suas próprias emoções e buscar o autocontrole, capacidade de cooperação e empatia, lidar com os desafios da vida com responsabilidade e flexibilidade são percepções significativas que devemos desenvolver em nossas crianças.

 

 

 

Texto de Emily Pearl Kingsley

“Quando você vai ter um bebê, é como planejar uma fabulosa viagem de férias – para a Itália. Você compra uma penca de guias de viagem e faz planos maravilhosos. O Coliseu, o Davi, de Michelangelo. As gôndolas de Veneza. Você pode aprender algumas frases úteis em italiano. É tudo muito empolgante.

Após meses de ansiosa expectativa, finalmente chega o dia. Você arruma suas malas e parte. Várias horas depois, o avião aterrissa. A comissária de bordo diz: “Bem-vindos à Holanda”

“Holanda? Como assim Holanda? Eu escolhi a Itália. Deveria estar na Itália. Toda minha vida sonhei em ir para a Itália”.

Mas houve uma mudança no plano de voo. Eles aterrissaram na Holanda e lá você deve ficar.

O mais importante é que não levaram você para um lugar horrível, repulsivo, imundo, cheio de pestilência, fome e doença. É apenas um lugar diferente.

Então você precisa sair e comprar novos guias de viagem. E deve aprender todo um novo idioma. E vai conhecer todo um novo grupo de pessoas que você nunca teria conhecido.

É apenas um lugar diferente. Tem um ritmo mais lento do que a Itália é menos vistosa que a Itália. Mas depois de estar lá por algum tempo e respirar fundo, você olha ao redor… E começa a perceber que a Holanda tem moinhos de vento… E tem tulipas. A Holanda tem até Rembrandts.

Mas todo mundo que você conhece está ocupado indo e voltando da Itália… E todos se gabam de quão maravilhoso foram os momentos que lá passaram. E pelo resto de sua vida você vai dizer: “Sim, era para onde eu deveria ter ido. É o que eu tinha planejado”.

E a dor que isso causa não irá embora nunca mais…Porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

Porém… Se passar a vida lamentando o fato de não ter chegado à Itália, você nunca estará livre para aproveitar as coisas muito especiais, as coisas adoráveis… Da Holanda”.

*Esse texto é um clássico para entendermos que não estamos no comando, mas que podemos aproveitar a viagem.

por Sandra Paro*

As mães que nos leem podem identificar falas corriqueiras no que aspiramos debater, dentre elas, falas sobre o desejo de ser mãe e deixar-se transformar pela maternidade.  Sobre a vontade de ensinar e aprender com os filhotes, acompanhar cada detalhe do desenvolvimento da sua criança, experimentar os medos, mudar as rotinas, desafiar o desconhecido. Tudo isso já é muita mudança na vida de uma pessoa, um filho muda tudo, principalmente se ele vem no espectro autista. Leiam agora o relato de uma mãe.

“A minha maternidade aconteceu aos 42 anos, e devo dizer que foi a melhor sensação que experimentei, eu estava preparada para ser mãe, para doar e quando minha filha nasceu percebi que doação era um assunto sério! Como mãe, achava minha filha normal, um tanto preguiçosa: não dava “tchau” aos 5 meses, não mandava beijinhos como as outras crianças, mas era capaz de sorrir, de imitar e até, arrisco dizer: falar. Aos 10 meses dizia: “Papa” e “Mama” e depois… “dog” e “ball”??

No berçário, na sua primeira apresentação para as mães, chorou do início ao fim, queria somente ficar nos braços do pai, enquanto outras crianças tentavam cantar e dançar. Nesse dia o alarme da diferença soou. Passamos a observar melhor determinados comportamentos e: ela falava menos, esteriotipava e fugia de ambientes festivos em que ela era a atenção, aniversários, por exemplo. Ouvimos profissionais e, claro, se ela não fala com 2 anos:  “levem à fonoaudióloga”. Feito!

O autismo era uma sombra que estava nos rondando, o silêncio da minha filha me incomodava, até que a fono encaminhou para um neuropediatra, e aí a sombra havia entrado não só na nossa casa, estava na nossa cama, tirando o nosso sono, e por fim, nas nossas vidas.

É um Transtorno (TEA – Transtorno do Espectro Autista), CID 10 – F84.0 –  dos Transtornos Globais do desenvolvimento – Autismo Infantil, por enquanto, a partir de 2022: CID 11, outros números, outras classificações, e eu??? Se é um transtorno? Sim, ficamos transtornados, todos. O pai chorou por três dias. Luto. É o que dizem, passamos por um período de luto. Era a escuridão. Tateando no escuro, reagi e busquei ajuda, conversei, falei, telefonei, me informei e iniciamos o tratamento.  Ahhhh sim, existe um tratamento!

O tratamento para o autismo infantil é multiprofissional: fonoaudiólogo, psicólogos comportamentais, terapeuta ocupacional. Assustada com tanta gente competente, e eu nem sabia o que era ABA (Análise do Comportamento Aplicada): sua filha vai fazer ABA! “Googuei!”  Num vídeo expositivo do “youtube” vi uma psicóloga dando instruções para uma menina de uns 7 anos e quando ela cumpria o comando, ganhava um biscoito. Horrorrr!

Ninguém escolhe ser mãe de criança autista, mas eu estava nesse barco e tinha que tomar o leme e buscar um rumo. Vamos fazer ABA!

Leituras, estudos, reuniões e a aplicação da terapia, o luto virou luta! Uma luta travada no dia-a-dia e com resultados visíveis. Durante um ano, a minha criança fez terapia sentada no meu colo. Erámos: eu, ela e a psicóloga, ou, no mesmo formato com a fonoaudióloga. Com um ano de terapia ABA ela já passou a ficar sentada com a AT (Psicóloga Assistente Terapêutica).”

É nesse ponto do texto que devemos retomar a terceira pessoa e deixar a breve experiência narrada no relato acima para que possamos esclarecer o que é ABA.

A história do autismo ainda está sendo contada, bem como dos tratamentos, que evoluíram muito e vão desde isolamento da criança até aplicação de terapias aversivas, como emprego de choque elétrico, para induzir respostas e comportamentos esperados, foi um longo caminho até chegarmos a um tratamento comportamental.

No início, através de punições, com ambiente organizado e com controle de estímulos, o reforço positivo era indicado pelo uso de alimentos. A partir desse ponto diversos tratamentos comportamentais foram desenvolvidos, mas os mais empregados, por apresentarem resultados visíveis eram (e são) ABA (do inglês, Applied Behavioral Analysis) e TEACH (que no Brasil é muito utilizado em APAES por adequar-se às necessidades desse tipo de Instituição).

A ABA é geralmente aplicada na casa do paciente por uma assistente terapêutica (psicóloga em formação ou já graduada) que é supervisionada por uma psicóloga responsável pelo caso, ambas devem ter uma formação continuada em Análise do Comportamento Aplicada, já que um dos principais problemas enfrentados no autismo é o comportamento, que necessita ser modelado para a vida em sociedade. É uma terapia estruturada que ensina também habilidades cognitivas e de linguagem, desse modo atende às principais necessidades desses indivíduos.

Essa abordagem mudou nossa perspectiva sobre o autismo, é possível fazer a criança aprender, modelar o seu comportamento e ensinar autonomia a ela. A cada fase do desenvolvimento somos novamente desafiados e SEMPRE buscamos novas maneiras para avançar no desenvolvimento da nossa filha.

Hoje, o ABA+ é uma solução criada por nós, que nos orgulha muito e que auxilia os profissionais no atendimento. Sempre haverá sol!


*Sandra Paro é filha, mãe, professora, estudiosa, pesquisadora, idealizadora do ABA+, incentivadora de pessoas, corajosa, disciplinada e ensaísta para o ABA+ É muita inteligência afetiva!

por Cris Alves

A TV Globo exibiu em outubro a série Sob Pressão – Covid, que narra a rotina dos médicos vividos por Marjorie Estiano e Júlio Andrade, assistindo aos episódios, percebe-se claramente a intenção da emissora em homenagear os profissionais envolvidos no combate à doença. No entanto, as cenas movimentadas e os diálogos cheios de questionamentos, transformaram a homenagem em um importante documento sobre a calamidade que expôs tanto as mazelas sociais como as motivações de médicos, enfermeiros e outros profissionais da área.

Exaltá-los é justo e para isso, basta recordar os enfrentamentos do começo da pandemia, muito maiores do que observadores temerosos, incrédulos ou descuidados pudessem imaginar.  O que fazer diante de uma doença altamente contagiosa, decorrente de um vírus desconhecido, que responde lentamente a medicamentos e que em determinados grupos é ainda mais cruel? Descobriram tanto e ainda tiveram que aprender ou aceitar que não se tem o controle de tudo, mas que sempre há algo mais a se fazer.

Assim fizeram. Geriram equipamentos escassos, resistiram aos interesses políticos, enfrentaram líderes insanos, disseminaram informações, acolheram parentes. Além de abdicarem do convívio social, de sobreviverem ao vírus ou a dor e frustração de verem colegas, amigos e familiares partirem. Por isso, reverenciá-los, é encantar-se com um ser humano cuidando de outro ser humano e isso não se faz apenas com estudo e experiência, mas também com ternura e compaixão.  Desse modo, o nosso reconhecimento a esses profissionais fala muito mais de nós do que deles, que de fato tornaram-se exemplos de luta, superação e esperança e devem servir de modelo e de inspiração.

Voltando à ficção, a série finaliza com uma fala do médico Evandro, após recuperar-se da doença. “Eu sei que ser profissional de saúde neste momento, está muito difícil. Todos estão exaustos, mas quem trabalha aqui dentro, entende a vida de outra maneira, a gente precisa defender a saúde pública e acreditar na ciência, só assim teremos um mundo mais justo e um país mais humano. Bora trabalhar, gente!”  Então que essa reflexão reverbere na realidade, que o convite ao trabalho honesto e esperançoso chegue a todos, que a luta contra líderes omissos e equivocados não seja em vão, que todo profissional tenha seu valor reconhecido e que qualquer injustiça seja tratada como tal. Vamos trabalhar sim.


Cris Alves é filha, mãe, professora encantadora de pequenos escritores, indignada, empenhada, multifacetada e articulista para o ABA+  É muita inteligência afetiva!

Por Mariza Domingues

E, enfim, o mundo descobriu quem somos! Somos professores!

Clichê já, dizer que o mundo está diferente, mas impossível desviar do clichê. Está! Muito diferente! Em tempos em que não se pegam nas mãos, o sorriso é camuflado na proteção, os olhos precisam aprender a dizer, os encontros são minguados e vigiados e contraditoriamente tudo se conecta sem se conectar, impossível perceber que é tudo tão diferente, tudo tão novo e desafiador.

Mas interessante perceber o movimento que se deu em busca do essencial. Mais interessante descobrir que, enfim, o professor entrou para o santuário dos essenciais.

O universo se movimentou de forma extraordinária – e, não entendam extraordinária como beleza e sim como força – para clamar aos seus que a vida é muito mais do que se estava compreendendo. A vida está além das coisas, dos desejos, do eu; a vida é nós, a vida é sorriso, encontro, toque, olho no olho, é compaixão, é empatia, é estar junto. Se não estamos juntos, nossa natureza se perde, se esvazia, se deforma. A expectativa de aprendizado dentro de um momento como esse de pandemia, distanciamento social é descobrir que só existimos se “somos juntos”.

O professor só alcançou o seu lugar de essencial quando perceberam que ele está sempre junto. O mundo descobriu o professor pela falta dele. Ele fez falta para estar com seu filho para você ir para o trabalho e ir com o coração em paz sabendo que ele é cuidado; ele fez falta na equação que não se desenrola para o resultado esperado; ele fez falta quando quis saber das montanhas, dos países distantes e seus costumes; ele fez falta quando você torceu para o acento da palavra ter desaparecido na última revisão ortográfica para justificar seu erro ou desconhecimento; ele fez falta para esclarecer os processos biológicos, químicos e médicos que tomaram conta do nosso cotidiano em meio à vírus, tratamentos e procedimentos; fez falta pra falar de política e oferecer um olhar que talvez fosse diferente do seu e que não te faria mudar de ideia, mas te faria descobrir um mundo em que as pessoas são diferentes e que isso não faz diferença nenhuma; fez falta quando seu filho sentiu falta e seu coração enfim, se comoveu. O professor fez falta porque seu filho, nosso aluno, sentiu nossa falta. E que dádiva termos um filho gente, filho ser humano, filho com emoção, filho que se comove.

E o milagre se fez! Professor tornou-se essencial!

Jamais houve o descaso com muitos que já tinham esse pensamento e nos demonstravam seu reconhecimento, mas agora, outros tantos que nunca sequer se dispuseram a pensar sobre tal resolveram nos presentear com esse título de essencial.

Espero não sofrer reprimendas com a confissão, mas inicialmente tive ímpeto de ficar indignada, talvez enraivecida com o reconhecimento tardio e motivado por questões práticas e não por reconhecimento verdadeiro. Mas, retomando a razão e motivada pelo coração, decidi aproveitar o momento, decidi aceitar o título, decidi ser essencial e tornar isso normal. Porque sei que professor é importante, sei que professor é peça fundamental da engrenagem que move descobertas, encontros, vínculos, saberes, estímulos.

Nós professores entramos na vida de nossos alunos e suas famílias, conhecemos suas singularidades, seus segredos, compartilhamos histórias, construímos laços de afeto, criamos histórias, acolhemos vidas. Descobrimos em tempos difíceis que essa é a razão da vida: viver junto, sentir junto, “ser junto”. Por isso, somos todos essenciais na nossa convivência. Essa convivência é que nos motiva, que nos dá força. Não temos a vaidade da essencialidade, temos agradecimento, temos o coração cheio de alegria para seguir descobrindo que as essências são imperceptíveis aos olhos, mas valiosas ao coração.

E que nossos corações sejam sensíveis para nunca esquecer de que só somos importantes em meio a outros importantes.

Professores, sigam! Força, coragem, perseverança! Vamos vencer! E não porque somos essenciais, mas sim porque somos valentes, desbravadores, corajosos e motivados pelo amor, respeito e compromisso com nossos alunos.

Feliz dia dos essenciais a todos os professores!


Mariza Domingues mulher, filha, mãe, professora empenhada na proposta educacional contemporânea, educadora LIV, Psicopedadoga em formação, uma pessoa incrível e ensaísta para o ABA+ ! É muita inteligência Afetiva!

por Chris Mamede

Querida criança,

Que saudade de você!
Do seu jeito leve, desse olhar tão seu.
Saudade daquelas horas de encontro, com abraço, com barulho, estardalhaço.
E o seu silêncio, então? Quanto tem a me ensinar.
Tantas vezes mergulhada em você desafiando o mundo a te entender,
E os bobos tentando te explicar, esmiuçar seu interno, eu até diria, dissecar.
Mas sem sentir? Não vão te alcançar!
Enquanto não te tocarem com a alma, vão divagar.

É devagar.
É, querida, o mundo corre, voa, atropela, mas cresce assim, d-e-v-a-g-a-r.
Alguns já compreendem que é preciso te olhar.
Talvez porque olhem pra si, crianças, e se permitem amar.
São aqueles tipos que dançam, riem, cantam, sem se importar com quem insiste em explicar.
Deixam que a mente dê lugar ao coração, pra só depois, pensar.
Saudade do pirlimpimpim. Já pensou se a gente pudesse tudo transformar?
“E quem disse que não pode?”

Lá vem você me ensinar!
Vou parando por aqui, passei mesmo para te reencontrar.
Isso nem é carta, é bilhete. É que minha alma precisava falar e só você a consegue alcançar.

Valeu!
Vou voltar pro mundo adulto, mas te levando no olhar!
Com amor, pra depois pensar!


Chris Mamede é mulher, filha mãe, avó e educadora, com orgulho de sê-lo. Um exemplo de amor e de vida dedicada aos outros. Educadora há 40 anos, educanda há quase 56. Ensaista para o ABA+, é muita Inteligência Afetiva!