por Sandra Paro*

As mães que nos leem podem identificar falas corriqueiras no que aspiramos debater, dentre elas, falas sobre o desejo de ser mãe e deixar-se transformar pela maternidade.  Sobre a vontade de ensinar e aprender com os filhotes, acompanhar cada detalhe do desenvolvimento da sua criança, experimentar os medos, mudar as rotinas, desafiar o desconhecido. Tudo isso já é muita mudança na vida de uma pessoa, um filho muda tudo, principalmente se ele vem no espectro autista. Leiam agora o relato de uma mãe.

“A minha maternidade aconteceu aos 42 anos, e devo dizer que foi a melhor sensação que experimentei, eu estava preparada para ser mãe, para doar e quando minha filha nasceu percebi que doação era um assunto sério! Como mãe, achava minha filha normal, um tanto preguiçosa: não dava “tchau” aos 5 meses, não mandava beijinhos como as outras crianças, mas era capaz de sorrir, de imitar e até, arrisco dizer: falar. Aos 10 meses dizia: “Papa” e “Mama” e depois… “dog” e “ball”??

No berçário, na sua primeira apresentação para as mães, chorou do início ao fim, queria somente ficar nos braços do pai, enquanto outras crianças tentavam cantar e dançar. Nesse dia o alarme da diferença soou. Passamos a observar melhor determinados comportamentos e: ela falava menos, esteriotipava e fugia de ambientes festivos em que ela era a atenção, aniversários, por exemplo. Ouvimos profissionais e, claro, se ela não fala com 2 anos:  “levem à fonoaudióloga”. Feito!

O autismo era uma sombra que estava nos rondando, o silêncio da minha filha me incomodava, até que a fono encaminhou para um neuropediatra, e aí a sombra havia entrado não só na nossa casa, estava na nossa cama, tirando o nosso sono, e por fim, nas nossas vidas.

É um Transtorno (TEA – Transtorno do Espectro Autista), CID 10 – F84.0 –  dos Transtornos Globais do desenvolvimento – Autismo Infantil, por enquanto, a partir de 2022: CID 11, outros números, outras classificações, e eu??? Se é um transtorno? Sim, ficamos transtornados, todos. O pai chorou por três dias. Luto. É o que dizem, passamos por um período de luto. Era a escuridão. Tateando no escuro, reagi e busquei ajuda, conversei, falei, telefonei, me informei e iniciamos o tratamento.  Ahhhh sim, existe um tratamento!

O tratamento para o autismo infantil é multiprofissional: fonoaudiólogo, psicólogos comportamentais, terapeuta ocupacional. Assustada com tanta gente competente, e eu nem sabia o que era ABA (Análise do Comportamento Aplicada): sua filha vai fazer ABA! “Googuei!”  Num vídeo expositivo do “youtube” vi uma psicóloga dando instruções para uma menina de uns 7 anos e quando ela cumpria o comando, ganhava um biscoito. Horrorrr!

Ninguém escolhe ser mãe de criança autista, mas eu estava nesse barco e tinha que tomar o leme e buscar um rumo. Vamos fazer ABA!

Leituras, estudos, reuniões e a aplicação da terapia, o luto virou luta! Uma luta travada no dia-a-dia e com resultados visíveis. Durante um ano, a minha criança fez terapia sentada no meu colo. Erámos: eu, ela e a psicóloga, ou, no mesmo formato com a fonoaudióloga. Com um ano de terapia ABA ela já passou a ficar sentada com a AT (Psicóloga Assistente Terapêutica).”

É nesse ponto do texto que devemos retomar a terceira pessoa e deixar a breve experiência narrada no relato acima para que possamos esclarecer o que é ABA.

A história do autismo ainda está sendo contada, bem como dos tratamentos, que evoluíram muito e vão desde isolamento da criança até aplicação de terapias aversivas, como emprego de choque elétrico, para induzir respostas e comportamentos esperados, foi um longo caminho até chegarmos a um tratamento comportamental.

No início, através de punições, com ambiente organizado e com controle de estímulos, o reforço positivo era indicado pelo uso de alimentos. A partir desse ponto diversos tratamentos comportamentais foram desenvolvidos, mas os mais empregados, por apresentarem resultados visíveis eram (e são) ABA (do inglês, Applied Behavioral Analysis) e TEACH (que no Brasil é muito utilizado em APAES por adequar-se às necessidades desse tipo de Instituição).

A ABA é geralmente aplicada na casa do paciente por uma assistente terapêutica (psicóloga em formação ou já graduada) que é supervisionada por uma psicóloga responsável pelo caso, ambas devem ter uma formação continuada em Análise do Comportamento Aplicada, já que um dos principais problemas enfrentados no autismo é o comportamento, que necessita ser modelado para a vida em sociedade. É uma terapia estruturada que ensina também habilidades cognitivas e de linguagem, desse modo atende às principais necessidades desses indivíduos.

Essa abordagem mudou nossa perspectiva sobre o autismo, é possível fazer a criança aprender, modelar o seu comportamento e ensinar autonomia a ela. A cada fase do desenvolvimento somos novamente desafiados e SEMPRE buscamos novas maneiras para avançar no desenvolvimento da nossa filha.

Hoje, o ABA+ é uma solução criada por nós, que nos orgulha muito e que auxilia os profissionais no atendimento. Sempre haverá sol!


*Sandra Paro é filha, mãe, professora, estudiosa, pesquisadora, idealizadora do ABA+, incentivadora de pessoas, corajosa, disciplinada e ensaísta para o ABA+ É muita inteligência afetiva!

por Cris Alves

A TV Globo exibiu em outubro a série Sob Pressão – Covid, que narra a rotina dos médicos vividos por Marjorie Estiano e Júlio Andrade, assistindo aos episódios, percebe-se claramente a intenção da emissora em homenagear os profissionais envolvidos no combate à doença. No entanto, as cenas movimentadas e os diálogos cheios de questionamentos, transformaram a homenagem em um importante documento sobre a calamidade que expôs tanto as mazelas sociais como as motivações de médicos, enfermeiros e outros profissionais da área.

Exaltá-los é justo e para isso, basta recordar os enfrentamentos do começo da pandemia, muito maiores do que observadores temerosos, incrédulos ou descuidados pudessem imaginar.  O que fazer diante de uma doença altamente contagiosa, decorrente de um vírus desconhecido, que responde lentamente a medicamentos e que em determinados grupos é ainda mais cruel? Descobriram tanto e ainda tiveram que aprender ou aceitar que não se tem o controle de tudo, mas que sempre há algo mais a se fazer.

Assim fizeram. Geriram equipamentos escassos, resistiram aos interesses políticos, enfrentaram líderes insanos, disseminaram informações, acolheram parentes. Além de abdicarem do convívio social, de sobreviverem ao vírus ou a dor e frustração de verem colegas, amigos e familiares partirem. Por isso, reverenciá-los, é encantar-se com um ser humano cuidando de outro ser humano e isso não se faz apenas com estudo e experiência, mas também com ternura e compaixão.  Desse modo, o nosso reconhecimento a esses profissionais fala muito mais de nós do que deles, que de fato tornaram-se exemplos de luta, superação e esperança e devem servir de modelo e de inspiração.

Voltando à ficção, a série finaliza com uma fala do médico Evandro, após recuperar-se da doença. “Eu sei que ser profissional de saúde neste momento, está muito difícil. Todos estão exaustos, mas quem trabalha aqui dentro, entende a vida de outra maneira, a gente precisa defender a saúde pública e acreditar na ciência, só assim teremos um mundo mais justo e um país mais humano. Bora trabalhar, gente!”  Então que essa reflexão reverbere na realidade, que o convite ao trabalho honesto e esperançoso chegue a todos, que a luta contra líderes omissos e equivocados não seja em vão, que todo profissional tenha seu valor reconhecido e que qualquer injustiça seja tratada como tal. Vamos trabalhar sim.


Cris Alves é filha, mãe, professora encantadora de pequenos escritores, indignada, empenhada, multifacetada e articulista para o ABA+  É muita inteligência afetiva!

Por Mariza Domingues

E, enfim, o mundo descobriu quem somos! Somos professores!

Clichê já, dizer que o mundo está diferente, mas impossível desviar do clichê. Está! Muito diferente! Em tempos em que não se pegam nas mãos, o sorriso é camuflado na proteção, os olhos precisam aprender a dizer, os encontros são minguados e vigiados e contraditoriamente tudo se conecta sem se conectar, impossível perceber que é tudo tão diferente, tudo tão novo e desafiador.

Mas interessante perceber o movimento que se deu em busca do essencial. Mais interessante descobrir que, enfim, o professor entrou para o santuário dos essenciais.

O universo se movimentou de forma extraordinária – e, não entendam extraordinária como beleza e sim como força – para clamar aos seus que a vida é muito mais do que se estava compreendendo. A vida está além das coisas, dos desejos, do eu; a vida é nós, a vida é sorriso, encontro, toque, olho no olho, é compaixão, é empatia, é estar junto. Se não estamos juntos, nossa natureza se perde, se esvazia, se deforma. A expectativa de aprendizado dentro de um momento como esse de pandemia, distanciamento social é descobrir que só existimos se “somos juntos”.

O professor só alcançou o seu lugar de essencial quando perceberam que ele está sempre junto. O mundo descobriu o professor pela falta dele. Ele fez falta para estar com seu filho para você ir para o trabalho e ir com o coração em paz sabendo que ele é cuidado; ele fez falta na equação que não se desenrola para o resultado esperado; ele fez falta quando quis saber das montanhas, dos países distantes e seus costumes; ele fez falta quando você torceu para o acento da palavra ter desaparecido na última revisão ortográfica para justificar seu erro ou desconhecimento; ele fez falta para esclarecer os processos biológicos, químicos e médicos que tomaram conta do nosso cotidiano em meio à vírus, tratamentos e procedimentos; fez falta pra falar de política e oferecer um olhar que talvez fosse diferente do seu e que não te faria mudar de ideia, mas te faria descobrir um mundo em que as pessoas são diferentes e que isso não faz diferença nenhuma; fez falta quando seu filho sentiu falta e seu coração enfim, se comoveu. O professor fez falta porque seu filho, nosso aluno, sentiu nossa falta. E que dádiva termos um filho gente, filho ser humano, filho com emoção, filho que se comove.

E o milagre se fez! Professor tornou-se essencial!

Jamais houve o descaso com muitos que já tinham esse pensamento e nos demonstravam seu reconhecimento, mas agora, outros tantos que nunca sequer se dispuseram a pensar sobre tal resolveram nos presentear com esse título de essencial.

Espero não sofrer reprimendas com a confissão, mas inicialmente tive ímpeto de ficar indignada, talvez enraivecida com o reconhecimento tardio e motivado por questões práticas e não por reconhecimento verdadeiro. Mas, retomando a razão e motivada pelo coração, decidi aproveitar o momento, decidi aceitar o título, decidi ser essencial e tornar isso normal. Porque sei que professor é importante, sei que professor é peça fundamental da engrenagem que move descobertas, encontros, vínculos, saberes, estímulos.

Nós professores entramos na vida de nossos alunos e suas famílias, conhecemos suas singularidades, seus segredos, compartilhamos histórias, construímos laços de afeto, criamos histórias, acolhemos vidas. Descobrimos em tempos difíceis que essa é a razão da vida: viver junto, sentir junto, “ser junto”. Por isso, somos todos essenciais na nossa convivência. Essa convivência é que nos motiva, que nos dá força. Não temos a vaidade da essencialidade, temos agradecimento, temos o coração cheio de alegria para seguir descobrindo que as essências são imperceptíveis aos olhos, mas valiosas ao coração.

E que nossos corações sejam sensíveis para nunca esquecer de que só somos importantes em meio a outros importantes.

Professores, sigam! Força, coragem, perseverança! Vamos vencer! E não porque somos essenciais, mas sim porque somos valentes, desbravadores, corajosos e motivados pelo amor, respeito e compromisso com nossos alunos.

Feliz dia dos essenciais a todos os professores!


Mariza Domingues mulher, filha, mãe, professora empenhada na proposta educacional contemporânea, educadora LIV, Psicopedadoga em formação, uma pessoa incrível e ensaísta para o ABA+ ! É muita inteligência Afetiva!

por Chris Mamede

Querida criança,

Que saudade de você!
Do seu jeito leve, desse olhar tão seu.
Saudade daquelas horas de encontro, com abraço, com barulho, estardalhaço.
E o seu silêncio, então? Quanto tem a me ensinar.
Tantas vezes mergulhada em você desafiando o mundo a te entender,
E os bobos tentando te explicar, esmiuçar seu interno, eu até diria, dissecar.
Mas sem sentir? Não vão te alcançar!
Enquanto não te tocarem com a alma, vão divagar.

É devagar.
É, querida, o mundo corre, voa, atropela, mas cresce assim, d-e-v-a-g-a-r.
Alguns já compreendem que é preciso te olhar.
Talvez porque olhem pra si, crianças, e se permitem amar.
São aqueles tipos que dançam, riem, cantam, sem se importar com quem insiste em explicar.
Deixam que a mente dê lugar ao coração, pra só depois, pensar.
Saudade do pirlimpimpim. Já pensou se a gente pudesse tudo transformar?
“E quem disse que não pode?”

Lá vem você me ensinar!
Vou parando por aqui, passei mesmo para te reencontrar.
Isso nem é carta, é bilhete. É que minha alma precisava falar e só você a consegue alcançar.

Valeu!
Vou voltar pro mundo adulto, mas te levando no olhar!
Com amor, pra depois pensar!


Chris Mamede é mulher, filha mãe, avó e educadora, com orgulho de sê-lo. Um exemplo de amor e de vida dedicada aos outros. Educadora há 40 anos, educanda há quase 56. Ensaista para o ABA+, é muita Inteligência Afetiva!

por Sandra Paro

Perder é inevitável ao longo das nossas vidas, mas nunca imaginamos que como pais e educadores algum dia tivéssemos que ensinar as nossas crianças a se comportar quando perdem. Como fazer isso, se ganhar é tão bom?!

Como podemos apoiar as nossas crianças durante o jogo e durante a brincadeira pode modificar a maneira de ela se comportar no futuro diante das inconstâncias da vida. Pois é! É vivendo que se aprende!

Aprender a perder e seguir em frente pode não ser tão fácil para as crianças, mas aqui chamamos atenção para crianças no TEA (Transtorno do Espectro Autista), que com padrões muito rígidos, nem sempre se recuperam facilmente dessas derrotas e levam então muito à sério o fato de perder.

Sabemos que exercitar a empatia é essencial, sabemos também que ganhar é motivador, mas não aprendemos tanto com a vitória como com as perdas, às vezes as frustrações nos ensinam muito, ver a alegria do outro pode sim nos alegrar e as crianças podem exercitar isso desde muito cedo.

Lendo uma obra sobre o tema, cuidei em retirar as boas dicas, em especial, as que modelam um bom comportamento para apoiar crianças durante o jogo.

E lá vão elas: a primeira é criar uma rotina própria e passar os termos antes de iniciar a brincadeira, sempre lembrando a todos os jogadores que o principal objetivo é a diversão, a brincadeira em si. Desse modo, podemos lembrar aos jogadores que todos devemos:

– Esperar a nossa vez;
– Devemos controlar nossas mãos e a nossa ansiedade e não interferir na jogada do colega;
– Se o jogador estiver para trás e começar a sentir que está chateado, reforcem que é apenas um jogo e peçam que respire fundo, é muita emoção…;
– Ensine crianças a dar bons incentivos aos jogadores, diga: “muito bom”, “bom trabalho”

Quando elas perderem:
– Relembrem sempre: é apenas um jogo, não há problema em perder;
– Ensine a iniciar o jogo desejando ao outro jogador, “um bom jogo”
– Ensine parabenizar o vencedor.

E quando o jogador vencedor estiver se sentindo muito animado e orgulhoso por ganhar o jogo, ensine mostrar bom espírito esportivo, torne-o a pessoa grata, estabeleça: “Quem ganha, guarda o jogo”.
E… tenhamos todos um bom jogo!

por Sandra Paro

Para quem conhece o DSM-5 e sabe que, um dos déficits apresentados no documento sobre o autismo está ligado às habilidades sociais e entende que, em um momento de pandemia as medidas restritivas tomadas pelos governos a fim de evitar sua disseminação são as de permanecer em casa, também entende que muitos atendimentos foram prejudicados, tratamentos foram abandonados e os desafios começaram.

Já que a necessidade impera e os vulneráveis são muitos: idosos, obesos, diabéticos, pacientes em reabilitação, autistas, deficientes e comunidades carentes de todo o tipo, somos o próprio grupo de risco no Brasil, onde a pandemia avança e surpreende as autoridades e continua a colapsar a saúde, também carente de atenção na nossa amada pátria.

Sobre as habilidades sociais, ficar em casa para pais e filhos, nesta situação, crianças com necessidades especiais, como na condição do espectro do autismo acaba sendo um desafio inesperado para quem tinha um tratamento organizado, com atendimentos, rotinas e intervenções individualizadas.

São muitas as preocupações da família e da sociedade de um modo geral; a contenção do contágio é uma das principais, mas temos outras preocupações como: a limitação do apoio físico e presencial dos terapeutas, a mudança da rotina e o processo de adaptação da família, o aumento natural do estresse de ainda não ter encontrado um caminho nessa nova maneira de viver, tanto para os pais, cuidadores e crianças no TEA.

A saúde de todos é uma prioridade que deve ser elencada acima de tudo, mas os problemas comportamentais não esperam, eles aparecem e escalam e somam com outros tantos que a família enclausurada já apresenta.

No Brasil, o isolamento social iniciou em meados de março de 2020 e hoje já temos números, dados, resultados de problemas associados: casos de ansiedade, depressão entre outros.

O que fazer com nossas crianças no espectro do autismo? Cada indivíduo é único, mas podemos tentar algumas estratégias para mudar o ambiente e adequar a nova situação, seguem algumas dicas, vejam o que cabe a cada situação, o que é possível realizar, mas sempre tenham em mente a verdade e a necessidade de cada circunstância e nunca coloquem sua criança em risco, ela precisa do seu bom senso.

Algumas ações que fazem toda a diferença:

1 – Estruturar atividades de rotinas diárias – a rotina foi interrompida, o funcionamento executivo está abalado, os problemas de planejamento atingiram até mesmo os adultos da casa, então é hora de organizar… planejar ajuda a ter uma previsão das tarefas e organizar mentalmente o que acontecerá no dia.

2 – É importante reservar um momento para o lazer durante o dia, é claro que as crianças gostam de brincar, e quando o momento é junto com a família, melhor ainda, ajuda na socialização e na manutenção do ambiente harmônico.

3 – Um bom momento para trabalhar as emoções, os gestos e explorar as situações emocionais de crianças com autismo. A través da modelação você pode ajudá-los a entender como se sentem.

4 – É muito importante que as crianças que já estavam encaminhadas nos atendimentos não os interrompam, mas há um fator agravante: a ansiedade é uma das comorbidades mais comuns entre os autistas, ou seja, as terapias presenciais foram interrompidas, como continuar? A modalidade de vídeo é recomendada, online ou áudio, o importante é achar a topografia mais adequada para cada paciente, pois pode diminuir a ansiedade e melhorar o humor.

5 – É muito importante dedicar um horário para o dever de casa. Essa é uma rotina que deve ser mantida. Mesmo que algumas crianças não consigam manter o aproveitamento das aulas online, a rotina de tarefas é essencial para que a criança fique conectada à escola.

6 – O tempo livre para as crianças deve ser mantido, todos precisamos de momentos para nós. As estereotipias podem aumentar, então proponha atividades físicas ao ar livre. Nesse período, o aumento nas estereotipias pode acontecer quando os hábitos estão mudando, os níveis de estresse podem ser elevados para crianças com autismo e o aumento das estereotipias pode ser o resultado comportamental do estresse percebido. Eles certamente não irão regredir, mas as atividades físicas podem ajudar no processo.

O mais importante é observar que nós e nossas crianças merecemos uma vida estável, com rotinas, saudável, com atividades físicas e que devemos, a nossa maneira, dentro das condições estabelecidas, manter o lazer e a qualidade de vida.

por Sandra Paro

Recentemente aplaudimos a incrível capacidade de Joshua Beckford, o adolescente de 14 anos, que se tornou médico pela universidade de Oxford, na Inglaterra. O britânico é o mais jovem médico de seu país e ganhou atenção pela tenra idade e por sua alta capacidade, que na notícia veiculada, está relacionada ao seu diagnóstico de autismo, aos 3 anos de idade.

A criança em questão foi matriculada no programa de superdotados da mencionada universidade aos 6 anos, quando já falava japonês, além da língua materna. A decisão pela medicina foi algo bem inusitado, já que aos quatro anos o jovem havia criado um simulador de remoção de órgãos humanos e a partir da criação dessa ferramenta ele decidiu que seria neurocirurgião. Ações pouco convencionais para crianças dessa idade.

As glórias do autismo são geralmente noticiadas e replicadas, mas as restrições da condição nem sempre são entendidas. Consta que Beckford tem problemas de hipersensibilidade: caminha na ponta dos pés, não tolera barulhos altos, usa sempre os mesmos pratos e talheres.  Ou seja, nem tudo são práticas acadêmicas!

Pessoas autistas podem apresentar uma variedade de pontos fortes e habilidades relacionadas ao diagnóstico, assim como podem apresentar dificuldades. O que que sempre lembramos, principalmente aos pais é “sua criança é única”, até mesmo o autismo de sua criança é único.

A criança autista pode ser muito boa em matemática ou simplesmente ter aversão à matemática, mas isso não é característica de “todos” os autistas. “Nossa, ele é autista, dizem que são muito inteligentes”  – Quais pais nunca ouviram isso? – Nem sempre: o TEA (Transtorno do Espectro Autista) não está necessariamente relacionado à deficiência intelectual (D.I.), mas crianças autistas podem apresentar D.I. como outras condições singulares, o que chamamos de comorbidade. Como também há pessoas no TEA que possuem inteligência de acordo com a média da população e outras como Joshua, em conjunto com Altas Habilidades.

O que é importante? Combinar as habilidades de sua criança com as suas atividades diárias podem torná-los mais felizes. Determinar as habilidades de uma criança autista e trabalhar nos desafios pode melhorar muito a vida da família.

Forças

– Aprendem a ler muito cedo (hiperlexia);

–  Grande capacidade de memorização;

– Pensam e aprendem de forma visual;

– Pensamento lógico;

– Precisão e o fato de orientar-se pelos detalhes;

– Forte adesão às regras e rotinas;

– Honestidade e confiabilidade;

– Capacidade de concentrar-se por longos períodos de tempo, quando motivada

Desafios

– Dificuldade em motivar-se;

– Dificuldade em focar em algo que não seja de seu interesse;

– Seguir regras sociais não descritas;

– Problemas para expressar os sentimentos;

– Dificuldades de planejamento;

– Dificuldades de ordem comportamental;

– Dificuldades na comunicação;

– Dificuldades de ordem sensorial.

É sempre importante estimular a criança e ensiná-la de várias formas, até que ela consiga adquirir autonomia.  Sua criança não precisa ser como Joshua, ela pode ser incrível, sendo ela mesma.

por Sandra Paro

Quando a criança nasce, nasce também uma mãe e um pai, uma família e os desafios, mas de uma forma sutil, suave, em termos de planos, desafios, no campo do possível, do entendível.

O que não parece tão compreensível quando a criança não apresenta um desenvolvimento típico é o seguinte: se antes do nascimento os pais se preparavam para viver a aventura de educar uma criança, agora eles seguem pelo terreno acidentado do desenvolvimento atípico… como  preparar para o mundo esse ser com necessidades tão específicas?

De acordo com a educadora Valéria Assunção: “O desenvolvimento infantil atípico é caracterizado pela apresentação de um sistema biológico prejudicado em conjunto com um ambiente que falha em desenvolver comportamentos normatizados, o desenvolvimento atípico também pode ocorrer em crianças que apresentam o sistema biológico preservado, mas que estão expostas a ambientes desfavoráveis para o desenvolvimento adequado, fatores econômicos e sociais que impedem a aprendizagem, acesso a estimulação e reforçamento de comportamentos negativos”.

Síndrome de Down, síndrome de Torett, Irlen e transtornos como o TEA – Transtorno do Espectro Autista ou Transtorno Global do Desenvolvimento, TDAH ou D.I. – Deficiência Intelectual fazem parte dos diagnósticos que necessitam de acompanhamento de equipe multiprofissional, intervenções e estimulação para que a criança em questão possa adquirir habilidades compatíveis com uma vida diária mais autônoma.

A busca da autonomia da criança pode ser um bom caminho a seguir, mas será necessário paciência, é quando tudo se torna mais lento, a paciência começa a ser um exercício diário e a busca por conhecimento e esclarecimento torna-se uma constante na vida de muitos pais.

As habilidades sociais também serão necessárias na vida de um indivíduo com desenvolvimento atípico, assim como na de todos os indivíduos, na nossa sociedade. Atualmente temos crianças que conseguem resolver problemas complexos que envolvem lógica matemática, mas não conseguem ir até a padaria comprar pão.

Ouvindo uma das autistas mais admiradas do mundo, Temple Grandin, podemos perceber razão em sua fala ao se dirigir às mães de crianças autistas sobre esperar. Esperar após dar a instrução, esperar após ensinar, esperar e treinar, treinar e esperar, esperar. Não esperar sem tentar, mas estimular e esperar e ter paciência para treinar.

Treinar habilidades em casa, realizar tarefas, dentro e fora de casa, estimular trabalhos reais, treinar e esperar, nunca fazer por eles, esperem que eles o façam.

Dar escolhas e envolver as crianças nas atividades diárias. Tirar proveito do hiperfoco da criança, ensinar e esgotar aquelas possibilidades.

E para quem diz que devemos, como pais, transformar as características da criança autista em algo bom, assim como acredita Grandin, segue um trecho de “Um antropólogo em Marte” em que Temple diz a O. Sacks: “Não me encaixo na vida social da minha cidade ou da universidade. Quase todos os meus contatos sociais são com pecuaristas ou gente interessada em autismo. Passo a maioria das minhas noites de sexta e sábado escrevendo artigos e desenhando. Meus interesses são factuais e minha leitura de lazer consiste majoritariamente em publicações científicas ou sobre gado. Tenho pouco interesse por romances com complicadas relações interpessoais, porque sou incapaz de lembrar a sequência de eventos. As descrições detalhadas de novas tecnologias em ficções científicas ou de lugares exóticos são muito mais interessantes. Minha vida seria horrível se eu não tivesse o desafio da minha carreira”.

Voltar-se para as características das crianças autistas e empenhar-se em transformar isso em algo bom pode ser o caminho para muitas famílias e até mesmo pensar que as habilidades básicas para viver podem ser muito mais importantes do que as habilidades acadêmicas.

Para a família nunca será fácil receber a notícia de que a condição de sua criança fará com que ela enfrente desafios ao longo da sua vida, mas os adultos devem ter em mente uma melhor qualidade de vida para o filho e isso envolve:

– buscar ajuda profissional;

– iniciar o tratamento logo no início para garantir melhor qualidade de vida, é importante agir o quanto antes

– incentivar as criança na realização de tarefas;

– criar uma rotina em que a criança tem funções a executar;

– proporcionar  momentos de aprendizagem prática;

– fazê-la praticar atividades físicas;

– ler para a criança;

– tenha tempo para brincar com a criança;

– não se desespere diante das dificuldades cotidianas.

Muito do que ouvimos, vemos e estudamos sobre indivíduos que são capazes de falar como se sentiram e o que tiveram que superar, dentro do desenvolvimento atípico, é muito singular, para alguns funcionará como motivação, para outros não. Mas aqui vai a dica, não podemos deixar de tentar. Assim é a vida. “Toda conquista começa com a decisão de tentar.”

Por Sandra Paro

São muitos os pais, os solteiros, os casados, os jovens, os com idade mais avançada, os presentes, os ausentes, os biológicos, os adotivos e também os pais de crianças de crianças com desenvolvimento atípico. Autismo, Síndrome de Down e outros tipos de deficiência.

Muito se ouve falar das mães como as principais apoiadoras no tratamento da criança autista, os pais nem sempre são mencionados, ou são menos conscientes das suas necessidades de apoio. Isso é lamentável, porque pesquisas nos últimos 30 anos descobriram o envolvimento positivo do pai, o que leva a outro fator muito interessante: os benefícios educacionais e psicológicos dessa participação de ambos (pai e mãe) para as crianças.

Estamos falando da pesquisa realizada pela professora Carol Potter, publicada no Journal of Intellectual and Developmental Disability. “O estudo investigou o envolvimento do pai no cuidado, na brincadeira e na educação de seus filhos com autismo, descobrindo que muitos homens estavam envolvidos nessas áreas (…) Metade dos pais era responsável, principalmente ou igualmente, pelas rotinas diárias de cuidados dos filhos, inclusive pela manhã e na hora de dormir (…) o número maior de pais passou o tempo envolvido em brincadeiras do que em qualquer outra atividade, embora pouco menos da metade não tenha recebido treinamento relevante nessa área-chave. Três quartos dos homens brincavam ou passavam momentos de lazer com os filhos todos os dias ou várias vezes por semana.

O estudo ainda revelou que muitos pais tiveram um papel significativo na educação e aprendizado dos filhos, 40% deles ajudando na lição de casa e participando das reuniões escolares. Quanto à contribuição financeira para a vida familiar os dados foram 85% dos homens em trabalho remunerado e um detalhe muito importante foi que ao ser perguntado aos pais se ter uma criança com autismo afetou de alguma maneira a sua rotina de trabalho, o resultado foi: quase metade dos entrevistados mudaram seu padrão de trabalho. As principais mudanças foram para: trabalho de meio período, por turnos ou autônomo).

Isso nos dá uma clara ideia de que nosso julgamento social sobre a figura paterna pode estar comprometido por provavelmente algum clichê… uma repetição de uma ideia de que os papais não participam. As evidências não mentem.

De fato, eles também devem experimentar o estresse diário e ter preocupações acerca do futuro, a falta de folga no gerenciamento do comportamento da criança ou até desespero em casos em que eles não sabem o que devem fazer exatamente.

O que aprendemos com essa pesquisa? Tentar não julgar os pais e a importância do papel deles na criação e envolvimento no tratamento de seus filhos. Além disso aprender com os profissionais pode ser bom para as famílias. Profissionais Analistas do comportamento precisam  promover um treino parental para ensinar pais e mães na intervenção diária.

Então, para todos os pais, um feliz e completo dia dos pais e que o empenho de vocês não seja negligenciado!

Por Cris Alves

Os primeiros casos de Coronavírus ocorreram em dezembro de 2019. Você se lembra da primeira vez que ouviu falar do vírus? Qual foi a sua reação? Fez piada sobre os hábitos alimentares dos chineses?  Pensou que chegaria tão rápido até nós? E quando chegou? Pensou que nos afetaria tanto? Passaram-se alguns meses e o modo como reagimos não mais importa, mas pode contribuir para uma oportuna análise do comportamento humano.

Após quatro meses de quedas e de saltos, de negações e de certezas, de sustos e de alívios decorrentes do distanciamento social, da instabilidade financeira e das estatísticas de doentes e mortos, como você, ser humano, tem agido diante de outro ser humano? A imprensa e as redes sociais têm nos dados fortes exemplos de que valores fundamentais à convivência estão distorcidos.

São inúmeros relatos de desrespeito, como do casal que desqualificou equivocadamente a formação profissional de um fiscal. Também de autossabotagem como a da senhora que assegurou que para combater o vírus basta usar álcool em gel, mesmo em local público e aglomerado. Relatos assim repercutiram e promoveram uma discussão produtiva sobre consciência individual e coletiva.

A sua humanidade também pode ser avaliada e comece pelo seu poder de escuta e de acolhida. Isso porque a Covid19 não é mais uma abstração e sim uma doença real e próxima.  Os contaminados de agora recebem além do diagnóstico um lastro de dor e sofrimento que atingiu, só no Brasil, mais de oitenta mil famílias, por isso, cobranças e comentários ácidos devem ser evitados, eles são cruéis e improducentes. Opte pela delicadeza dos gestos e das palavras, o retorno pode durar uma vida o que, sem dúvida, vale a pena.