Por Mariza Domingues

E, enfim, o mundo descobriu quem somos! Somos professores!

Clichê já, dizer que o mundo está diferente, mas impossível desviar do clichê. Está! Muito diferente! Em tempos em que não se pegam nas mãos, o sorriso é camuflado na proteção, os olhos precisam aprender a dizer, os encontros são minguados e vigiados e contraditoriamente tudo se conecta sem se conectar, impossível perceber que é tudo tão diferente, tudo tão novo e desafiador.

Mas interessante perceber o movimento que se deu em busca do essencial. Mais interessante descobrir que, enfim, o professor entrou para o santuário dos essenciais.

O universo se movimentou de forma extraordinária – e, não entendam extraordinária como beleza e sim como força – para clamar aos seus que a vida é muito mais do que se estava compreendendo. A vida está além das coisas, dos desejos, do eu; a vida é nós, a vida é sorriso, encontro, toque, olho no olho, é compaixão, é empatia, é estar junto. Se não estamos juntos, nossa natureza se perde, se esvazia, se deforma. A expectativa de aprendizado dentro de um momento como esse de pandemia, distanciamento social é descobrir que só existimos se “somos juntos”.

O professor só alcançou o seu lugar de essencial quando perceberam que ele está sempre junto. O mundo descobriu o professor pela falta dele. Ele fez falta para estar com seu filho para você ir para o trabalho e ir com o coração em paz sabendo que ele é cuidado; ele fez falta na equação que não se desenrola para o resultado esperado; ele fez falta quando quis saber das montanhas, dos países distantes e seus costumes; ele fez falta quando você torceu para o acento da palavra ter desaparecido na última revisão ortográfica para justificar seu erro ou desconhecimento; ele fez falta para esclarecer os processos biológicos, químicos e médicos que tomaram conta do nosso cotidiano em meio à vírus, tratamentos e procedimentos; fez falta pra falar de política e oferecer um olhar que talvez fosse diferente do seu e que não te faria mudar de ideia, mas te faria descobrir um mundo em que as pessoas são diferentes e que isso não faz diferença nenhuma; fez falta quando seu filho sentiu falta e seu coração enfim, se comoveu. O professor fez falta porque seu filho, nosso aluno, sentiu nossa falta. E que dádiva termos um filho gente, filho ser humano, filho com emoção, filho que se comove.

E o milagre se fez! Professor tornou-se essencial!

Jamais houve o descaso com muitos que já tinham esse pensamento e nos demonstravam seu reconhecimento, mas agora, outros tantos que nunca sequer se dispuseram a pensar sobre tal resolveram nos presentear com esse título de essencial.

Espero não sofrer reprimendas com a confissão, mas inicialmente tive ímpeto de ficar indignada, talvez enraivecida com o reconhecimento tardio e motivado por questões práticas e não por reconhecimento verdadeiro. Mas, retomando a razão e motivada pelo coração, decidi aproveitar o momento, decidi aceitar o título, decidi ser essencial e tornar isso normal. Porque sei que professor é importante, sei que professor é peça fundamental da engrenagem que move descobertas, encontros, vínculos, saberes, estímulos.

Nós professores entramos na vida de nossos alunos e suas famílias, conhecemos suas singularidades, seus segredos, compartilhamos histórias, construímos laços de afeto, criamos histórias, acolhemos vidas. Descobrimos em tempos difíceis que essa é a razão da vida: viver junto, sentir junto, “ser junto”. Por isso, somos todos essenciais na nossa convivência. Essa convivência é que nos motiva, que nos dá força. Não temos a vaidade da essencialidade, temos agradecimento, temos o coração cheio de alegria para seguir descobrindo que as essências são imperceptíveis aos olhos, mas valiosas ao coração.

E que nossos corações sejam sensíveis para nunca esquecer de que só somos importantes em meio a outros importantes.

Professores, sigam! Força, coragem, perseverança! Vamos vencer! E não porque somos essenciais, mas sim porque somos valentes, desbravadores, corajosos e motivados pelo amor, respeito e compromisso com nossos alunos.

Feliz dia dos essenciais a todos os professores!


Mariza Domingues mulher, filha, mãe, professora empenhada na proposta educacional contemporânea, educadora LIV, Psicopedadoga em formação, uma pessoa incrível e ensaísta para o ABA+ ! É muita inteligência Afetiva!

por Chris Mamede

Querida criança,

Que saudade de você!
Do seu jeito leve, desse olhar tão seu.
Saudade daquelas horas de encontro, com abraço, com barulho, estardalhaço.
E o seu silêncio, então? Quanto tem a me ensinar.
Tantas vezes mergulhada em você desafiando o mundo a te entender,
E os bobos tentando te explicar, esmiuçar seu interno, eu até diria, dissecar.
Mas sem sentir? Não vão te alcançar!
Enquanto não te tocarem com a alma, vão divagar.

É devagar.
É, querida, o mundo corre, voa, atropela, mas cresce assim, d-e-v-a-g-a-r.
Alguns já compreendem que é preciso te olhar.
Talvez porque olhem pra si, crianças, e se permitem amar.
São aqueles tipos que dançam, riem, cantam, sem se importar com quem insiste em explicar.
Deixam que a mente dê lugar ao coração, pra só depois, pensar.
Saudade do pirlimpimpim. Já pensou se a gente pudesse tudo transformar?
“E quem disse que não pode?”

Lá vem você me ensinar!
Vou parando por aqui, passei mesmo para te reencontrar.
Isso nem é carta, é bilhete. É que minha alma precisava falar e só você a consegue alcançar.

Valeu!
Vou voltar pro mundo adulto, mas te levando no olhar!
Com amor, pra depois pensar!


Chris Mamede é mulher, filha mãe, avó e educadora, com orgulho de sê-lo. Um exemplo de amor e de vida dedicada aos outros. Educadora há 40 anos, educanda há quase 56. Ensaista para o ABA+, é muita Inteligência Afetiva!

por Sandra Paro

Perder é inevitável ao longo das nossas vidas, mas nunca imaginamos que como pais e educadores algum dia tivéssemos que ensinar as nossas crianças a se comportar quando perdem. Como fazer isso, se ganhar é tão bom?!

Como podemos apoiar as nossas crianças durante o jogo e durante a brincadeira pode modificar a maneira de ela se comportar no futuro diante das inconstâncias da vida. Pois é! É vivendo que se aprende!

Aprender a perder e seguir em frente pode não ser tão fácil para as crianças, mas aqui chamamos atenção para crianças no TEA (Transtorno do Espectro Autista), que com padrões muito rígidos, nem sempre se recuperam facilmente dessas derrotas e levam então muito à sério o fato de perder.

Sabemos que exercitar a empatia é essencial, sabemos também que ganhar é motivador, mas não aprendemos tanto com a vitória como com as perdas, às vezes as frustrações nos ensinam muito, ver a alegria do outro pode sim nos alegrar e as crianças podem exercitar isso desde muito cedo.

Lendo uma obra sobre o tema, cuidei em retirar as boas dicas, em especial, as que modelam um bom comportamento para apoiar crianças durante o jogo.

E lá vão elas: a primeira é criar uma rotina própria e passar os termos antes de iniciar a brincadeira, sempre lembrando a todos os jogadores que o principal objetivo é a diversão, a brincadeira em si. Desse modo, podemos lembrar aos jogadores que todos devemos:

– Esperar a nossa vez;
– Devemos controlar nossas mãos e a nossa ansiedade e não interferir na jogada do colega;
– Se o jogador estiver para trás e começar a sentir que está chateado, reforcem que é apenas um jogo e peçam que respire fundo, é muita emoção…;
– Ensine crianças a dar bons incentivos aos jogadores, diga: “muito bom”, “bom trabalho”

Quando elas perderem:
– Relembrem sempre: é apenas um jogo, não há problema em perder;
– Ensine a iniciar o jogo desejando ao outro jogador, “um bom jogo”
– Ensine parabenizar o vencedor.

E quando o jogador vencedor estiver se sentindo muito animado e orgulhoso por ganhar o jogo, ensine mostrar bom espírito esportivo, torne-o a pessoa grata, estabeleça: “Quem ganha, guarda o jogo”.
E… tenhamos todos um bom jogo!

por Sandra Paro

Para quem conhece o DSM-5 e sabe que, um dos déficits apresentados no documento sobre o autismo está ligado às habilidades sociais e entende que, em um momento de pandemia as medidas restritivas tomadas pelos governos a fim de evitar sua disseminação são as de permanecer em casa, também entende que muitos atendimentos foram prejudicados, tratamentos foram abandonados e os desafios começaram.

Já que a necessidade impera e os vulneráveis são muitos: idosos, obesos, diabéticos, pacientes em reabilitação, autistas, deficientes e comunidades carentes de todo o tipo, somos o próprio grupo de risco no Brasil, onde a pandemia avança e surpreende as autoridades e continua a colapsar a saúde, também carente de atenção na nossa amada pátria.

Sobre as habilidades sociais, ficar em casa para pais e filhos, nesta situação, crianças com necessidades especiais, como na condição do espectro do autismo acaba sendo um desafio inesperado para quem tinha um tratamento organizado, com atendimentos, rotinas e intervenções individualizadas.

São muitas as preocupações da família e da sociedade de um modo geral; a contenção do contágio é uma das principais, mas temos outras preocupações como: a limitação do apoio físico e presencial dos terapeutas, a mudança da rotina e o processo de adaptação da família, o aumento natural do estresse de ainda não ter encontrado um caminho nessa nova maneira de viver, tanto para os pais, cuidadores e crianças no TEA.

A saúde de todos é uma prioridade que deve ser elencada acima de tudo, mas os problemas comportamentais não esperam, eles aparecem e escalam e somam com outros tantos que a família enclausurada já apresenta.

No Brasil, o isolamento social iniciou em meados de março de 2020 e hoje já temos números, dados, resultados de problemas associados: casos de ansiedade, depressão entre outros.

O que fazer com nossas crianças no espectro do autismo? Cada indivíduo é único, mas podemos tentar algumas estratégias para mudar o ambiente e adequar a nova situação, seguem algumas dicas, vejam o que cabe a cada situação, o que é possível realizar, mas sempre tenham em mente a verdade e a necessidade de cada circunstância e nunca coloquem sua criança em risco, ela precisa do seu bom senso.

Algumas ações que fazem toda a diferença:

1 – Estruturar atividades de rotinas diárias – a rotina foi interrompida, o funcionamento executivo está abalado, os problemas de planejamento atingiram até mesmo os adultos da casa, então é hora de organizar… planejar ajuda a ter uma previsão das tarefas e organizar mentalmente o que acontecerá no dia.

2 – É importante reservar um momento para o lazer durante o dia, é claro que as crianças gostam de brincar, e quando o momento é junto com a família, melhor ainda, ajuda na socialização e na manutenção do ambiente harmônico.

3 – Um bom momento para trabalhar as emoções, os gestos e explorar as situações emocionais de crianças com autismo. A través da modelação você pode ajudá-los a entender como se sentem.

4 – É muito importante que as crianças que já estavam encaminhadas nos atendimentos não os interrompam, mas há um fator agravante: a ansiedade é uma das comorbidades mais comuns entre os autistas, ou seja, as terapias presenciais foram interrompidas, como continuar? A modalidade de vídeo é recomendada, online ou áudio, o importante é achar a topografia mais adequada para cada paciente, pois pode diminuir a ansiedade e melhorar o humor.

5 – É muito importante dedicar um horário para o dever de casa. Essa é uma rotina que deve ser mantida. Mesmo que algumas crianças não consigam manter o aproveitamento das aulas online, a rotina de tarefas é essencial para que a criança fique conectada à escola.

6 – O tempo livre para as crianças deve ser mantido, todos precisamos de momentos para nós. As estereotipias podem aumentar, então proponha atividades físicas ao ar livre. Nesse período, o aumento nas estereotipias pode acontecer quando os hábitos estão mudando, os níveis de estresse podem ser elevados para crianças com autismo e o aumento das estereotipias pode ser o resultado comportamental do estresse percebido. Eles certamente não irão regredir, mas as atividades físicas podem ajudar no processo.

O mais importante é observar que nós e nossas crianças merecemos uma vida estável, com rotinas, saudável, com atividades físicas e que devemos, a nossa maneira, dentro das condições estabelecidas, manter o lazer e a qualidade de vida.

por Sandra Paro

Recentemente aplaudimos a incrível capacidade de Joshua Beckford, o adolescente de 14 anos, que se tornou médico pela universidade de Oxford, na Inglaterra. O britânico é o mais jovem médico de seu país e ganhou atenção pela tenra idade e por sua alta capacidade, que na notícia veiculada, está relacionada ao seu diagnóstico de autismo, aos 3 anos de idade.

A criança em questão foi matriculada no programa de superdotados da mencionada universidade aos 6 anos, quando já falava japonês, além da língua materna. A decisão pela medicina foi algo bem inusitado, já que aos quatro anos o jovem havia criado um simulador de remoção de órgãos humanos e a partir da criação dessa ferramenta ele decidiu que seria neurocirurgião. Ações pouco convencionais para crianças dessa idade.

As glórias do autismo são geralmente noticiadas e replicadas, mas as restrições da condição nem sempre são entendidas. Consta que Beckford tem problemas de hipersensibilidade: caminha na ponta dos pés, não tolera barulhos altos, usa sempre os mesmos pratos e talheres.  Ou seja, nem tudo são práticas acadêmicas!

Pessoas autistas podem apresentar uma variedade de pontos fortes e habilidades relacionadas ao diagnóstico, assim como podem apresentar dificuldades. O que que sempre lembramos, principalmente aos pais é “sua criança é única”, até mesmo o autismo de sua criança é único.

A criança autista pode ser muito boa em matemática ou simplesmente ter aversão à matemática, mas isso não é característica de “todos” os autistas. “Nossa, ele é autista, dizem que são muito inteligentes”  – Quais pais nunca ouviram isso? – Nem sempre: o TEA (Transtorno do Espectro Autista) não está necessariamente relacionado à deficiência intelectual (D.I.), mas crianças autistas podem apresentar D.I. como outras condições singulares, o que chamamos de comorbidade. Como também há pessoas no TEA que possuem inteligência de acordo com a média da população e outras como Joshua, em conjunto com Altas Habilidades.

O que é importante? Combinar as habilidades de sua criança com as suas atividades diárias podem torná-los mais felizes. Determinar as habilidades de uma criança autista e trabalhar nos desafios pode melhorar muito a vida da família.

Forças

– Aprendem a ler muito cedo (hiperlexia);

–  Grande capacidade de memorização;

– Pensam e aprendem de forma visual;

– Pensamento lógico;

– Precisão e o fato de orientar-se pelos detalhes;

– Forte adesão às regras e rotinas;

– Honestidade e confiabilidade;

– Capacidade de concentrar-se por longos períodos de tempo, quando motivada

Desafios

– Dificuldade em motivar-se;

– Dificuldade em focar em algo que não seja de seu interesse;

– Seguir regras sociais não descritas;

– Problemas para expressar os sentimentos;

– Dificuldades de planejamento;

– Dificuldades de ordem comportamental;

– Dificuldades na comunicação;

– Dificuldades de ordem sensorial.

É sempre importante estimular a criança e ensiná-la de várias formas, até que ela consiga adquirir autonomia.  Sua criança não precisa ser como Joshua, ela pode ser incrível, sendo ela mesma.

por Sandra Paro

Quando a criança nasce, nasce também uma mãe e um pai, uma família e os desafios, mas de uma forma sutil, suave, em termos de planos, desafios, no campo do possível, do entendível.

O que não parece tão compreensível quando a criança não apresenta um desenvolvimento típico é o seguinte: se antes do nascimento os pais se preparavam para viver a aventura de educar uma criança, agora eles seguem pelo terreno acidentado do desenvolvimento atípico… como  preparar para o mundo esse ser com necessidades tão específicas?

De acordo com a educadora Valéria Assunção: “O desenvolvimento infantil atípico é caracterizado pela apresentação de um sistema biológico prejudicado em conjunto com um ambiente que falha em desenvolver comportamentos normatizados, o desenvolvimento atípico também pode ocorrer em crianças que apresentam o sistema biológico preservado, mas que estão expostas a ambientes desfavoráveis para o desenvolvimento adequado, fatores econômicos e sociais que impedem a aprendizagem, acesso a estimulação e reforçamento de comportamentos negativos”.

Síndrome de Down, síndrome de Torett, Irlen e transtornos como o TEA – Transtorno do Espectro Autista ou Transtorno Global do Desenvolvimento, TDAH ou D.I. – Deficiência Intelectual fazem parte dos diagnósticos que necessitam de acompanhamento de equipe multiprofissional, intervenções e estimulação para que a criança em questão possa adquirir habilidades compatíveis com uma vida diária mais autônoma.

A busca da autonomia da criança pode ser um bom caminho a seguir, mas será necessário paciência, é quando tudo se torna mais lento, a paciência começa a ser um exercício diário e a busca por conhecimento e esclarecimento torna-se uma constante na vida de muitos pais.

As habilidades sociais também serão necessárias na vida de um indivíduo com desenvolvimento atípico, assim como na de todos os indivíduos, na nossa sociedade. Atualmente temos crianças que conseguem resolver problemas complexos que envolvem lógica matemática, mas não conseguem ir até a padaria comprar pão.

Ouvindo uma das autistas mais admiradas do mundo, Temple Grandin, podemos perceber razão em sua fala ao se dirigir às mães de crianças autistas sobre esperar. Esperar após dar a instrução, esperar após ensinar, esperar e treinar, treinar e esperar, esperar. Não esperar sem tentar, mas estimular e esperar e ter paciência para treinar.

Treinar habilidades em casa, realizar tarefas, dentro e fora de casa, estimular trabalhos reais, treinar e esperar, nunca fazer por eles, esperem que eles o façam.

Dar escolhas e envolver as crianças nas atividades diárias. Tirar proveito do hiperfoco da criança, ensinar e esgotar aquelas possibilidades.

E para quem diz que devemos, como pais, transformar as características da criança autista em algo bom, assim como acredita Grandin, segue um trecho de “Um antropólogo em Marte” em que Temple diz a O. Sacks: “Não me encaixo na vida social da minha cidade ou da universidade. Quase todos os meus contatos sociais são com pecuaristas ou gente interessada em autismo. Passo a maioria das minhas noites de sexta e sábado escrevendo artigos e desenhando. Meus interesses são factuais e minha leitura de lazer consiste majoritariamente em publicações científicas ou sobre gado. Tenho pouco interesse por romances com complicadas relações interpessoais, porque sou incapaz de lembrar a sequência de eventos. As descrições detalhadas de novas tecnologias em ficções científicas ou de lugares exóticos são muito mais interessantes. Minha vida seria horrível se eu não tivesse o desafio da minha carreira”.

Voltar-se para as características das crianças autistas e empenhar-se em transformar isso em algo bom pode ser o caminho para muitas famílias e até mesmo pensar que as habilidades básicas para viver podem ser muito mais importantes do que as habilidades acadêmicas.

Para a família nunca será fácil receber a notícia de que a condição de sua criança fará com que ela enfrente desafios ao longo da sua vida, mas os adultos devem ter em mente uma melhor qualidade de vida para o filho e isso envolve:

– buscar ajuda profissional;

– iniciar o tratamento logo no início para garantir melhor qualidade de vida, é importante agir o quanto antes

– incentivar as criança na realização de tarefas;

– criar uma rotina em que a criança tem funções a executar;

– proporcionar  momentos de aprendizagem prática;

– fazê-la praticar atividades físicas;

– ler para a criança;

– tenha tempo para brincar com a criança;

– não se desespere diante das dificuldades cotidianas.

Muito do que ouvimos, vemos e estudamos sobre indivíduos que são capazes de falar como se sentiram e o que tiveram que superar, dentro do desenvolvimento atípico, é muito singular, para alguns funcionará como motivação, para outros não. Mas aqui vai a dica, não podemos deixar de tentar. Assim é a vida. “Toda conquista começa com a decisão de tentar.”

Por Sandra Paro

São muitos os pais, os solteiros, os casados, os jovens, os com idade mais avançada, os presentes, os ausentes, os biológicos, os adotivos e também os pais de crianças de crianças com desenvolvimento atípico. Autismo, Síndrome de Down e outros tipos de deficiência.

Muito se ouve falar das mães como as principais apoiadoras no tratamento da criança autista, os pais nem sempre são mencionados, ou são menos conscientes das suas necessidades de apoio. Isso é lamentável, porque pesquisas nos últimos 30 anos descobriram o envolvimento positivo do pai, o que leva a outro fator muito interessante: os benefícios educacionais e psicológicos dessa participação de ambos (pai e mãe) para as crianças.

Estamos falando da pesquisa realizada pela professora Carol Potter, publicada no Journal of Intellectual and Developmental Disability. “O estudo investigou o envolvimento do pai no cuidado, na brincadeira e na educação de seus filhos com autismo, descobrindo que muitos homens estavam envolvidos nessas áreas (…) Metade dos pais era responsável, principalmente ou igualmente, pelas rotinas diárias de cuidados dos filhos, inclusive pela manhã e na hora de dormir (…) o número maior de pais passou o tempo envolvido em brincadeiras do que em qualquer outra atividade, embora pouco menos da metade não tenha recebido treinamento relevante nessa área-chave. Três quartos dos homens brincavam ou passavam momentos de lazer com os filhos todos os dias ou várias vezes por semana.

O estudo ainda revelou que muitos pais tiveram um papel significativo na educação e aprendizado dos filhos, 40% deles ajudando na lição de casa e participando das reuniões escolares. Quanto à contribuição financeira para a vida familiar os dados foram 85% dos homens em trabalho remunerado e um detalhe muito importante foi que ao ser perguntado aos pais se ter uma criança com autismo afetou de alguma maneira a sua rotina de trabalho, o resultado foi: quase metade dos entrevistados mudaram seu padrão de trabalho. As principais mudanças foram para: trabalho de meio período, por turnos ou autônomo).

Isso nos dá uma clara ideia de que nosso julgamento social sobre a figura paterna pode estar comprometido por provavelmente algum clichê… uma repetição de uma ideia de que os papais não participam. As evidências não mentem.

De fato, eles também devem experimentar o estresse diário e ter preocupações acerca do futuro, a falta de folga no gerenciamento do comportamento da criança ou até desespero em casos em que eles não sabem o que devem fazer exatamente.

O que aprendemos com essa pesquisa? Tentar não julgar os pais e a importância do papel deles na criação e envolvimento no tratamento de seus filhos. Além disso aprender com os profissionais pode ser bom para as famílias. Profissionais Analistas do comportamento precisam  promover um treino parental para ensinar pais e mães na intervenção diária.

Então, para todos os pais, um feliz e completo dia dos pais e que o empenho de vocês não seja negligenciado!

Por Cris Alves

Os primeiros casos de Coronavírus ocorreram em dezembro de 2019. Você se lembra da primeira vez que ouviu falar do vírus? Qual foi a sua reação? Fez piada sobre os hábitos alimentares dos chineses?  Pensou que chegaria tão rápido até nós? E quando chegou? Pensou que nos afetaria tanto? Passaram-se alguns meses e o modo como reagimos não mais importa, mas pode contribuir para uma oportuna análise do comportamento humano.

Após quatro meses de quedas e de saltos, de negações e de certezas, de sustos e de alívios decorrentes do distanciamento social, da instabilidade financeira e das estatísticas de doentes e mortos, como você, ser humano, tem agido diante de outro ser humano? A imprensa e as redes sociais têm nos dados fortes exemplos de que valores fundamentais à convivência estão distorcidos.

São inúmeros relatos de desrespeito, como do casal que desqualificou equivocadamente a formação profissional de um fiscal. Também de autossabotagem como a da senhora que assegurou que para combater o vírus basta usar álcool em gel, mesmo em local público e aglomerado. Relatos assim repercutiram e promoveram uma discussão produtiva sobre consciência individual e coletiva.

A sua humanidade também pode ser avaliada e comece pelo seu poder de escuta e de acolhida. Isso porque a Covid19 não é mais uma abstração e sim uma doença real e próxima.  Os contaminados de agora recebem além do diagnóstico um lastro de dor e sofrimento que atingiu, só no Brasil, mais de oitenta mil famílias, por isso, cobranças e comentários ácidos devem ser evitados, eles são cruéis e improducentes. Opte pela delicadeza dos gestos e das palavras, o retorno pode durar uma vida o que, sem dúvida, vale a pena.

Por Sandra Paro

Tempos modernos? Tempos difíceis, sim. Como preservar a sanidade das famílias? Estamos estressados, nossas crianças autistas também e mais! Como agir? Toda direção leva à segurança e à saúde das nossas crianças.

Estamos envolvidos numa situação que requer atenção, cuidados e sobretudo…calma! Muita calma nessa hora!

O chamado “novo normal” não é normal, muito menos aos olhos dos indivíduos no espectro autista. Qual o nosso papel, afinal?  Atenção família: somos pais, professores, tutores, cuidadores em tempo integral. E… ainda somos nós, cheios de sonhos esperanças e… muita insegurança!

Cuidar da família sempre foi um objetivo para você? Se sim, você está bastante atarefado. Com a quarentena nossos objetivos, necessidades e prioridades mudaram, talvez não! O que sempre temos que ter em mente é… desacelerar, é acreditar que fazemos a diferença!

Um estudo realizado na Universidade de Denver, nos EUA mostra que manter a rotina diária é importante e que conviver mais em família pode revelar uma sintonia interessante.

A Dra. Sarah Watamura, diretora de psicologia e do laboratório de saúde e desenvolvimento infantil revela algo que, de certo modo, já estamos experimentando: “Vivemos em um tempo e lugar em que a cultura dos pais nos EUA coloca expectativas extremas sobre os pais”.  No Brasil, também, mas diferentemente dos EUA ainda temos a insegurança na orientação adequada e na certeza do que é o correto, pois sim, muitas famílias ficam divididas entre tantas opiniões sobre o que é o correto e o que é adequado para a segurança e sobrevivência de todos. Famílias em que mais de um adulto trabalha e além do trabalho e as atividades curriculares de cada filho e a manutenção da casa: almoços caseiros, jantares e toda a rotina que deverá ser mantida ou estar de acordo com o caos que se instalará por falta de ordem e rotina. Ensinar os filhos em casa, quem já pensou nisso? Já era difícil e de repente tudo se torna mais difícil!

As pressões dos pais são enormes, como eles deverão administrá-las?

Pensando bem, o que é mais importante? Garantir noites tranquilas aos seus filhos, noites seguras, em que eles se sintam amados.

Nem sempre poderemos, como pais, fazer tudo o que gostaríamos ou deveríamos. Temos que focar no que é principal: inibir o sentimento de medo e nos concentrar em algo vindouro e transformador: promover o amor pela leitura. Uma grande oportunidade lhe foi dada… leia para o seu filho. É importante definir prioridades, a família fica sensível e responde ao que é essencial. Quando os pais se estressam ou protestam as crianças sentem isso e aí vem o prejuízo ao bem-estar geral da família e consequentemente aos resultados e à vida útil das crianças.

Pode parecer louco, mas é incrível a capacidade das famílias diante da adversidade, algo positivo e inesquecível pode acontecer, essa sintonia é algo que deverá ser construído e preservado é um momento único de confiança entre os componentes de uma mesma célula.

Evitar criticar, validar as emoções das crianças;

Evitar maneiras de fazer a sua criança se sentir melhor, mas proporcionar a ela momentos para se acalmar e então reconhecer suas emoções e oferecer opções para que as crianças possam processar e entender o que sentem.

Tirar a mente de uma situação que o corpo sente. Acalmar-se e ser capaz de pedir ajuda.

Peça um minuto para pensar sobre o que está acontecendo, depois responda a ele de maneira calma e racional.

Sincronize metas e expectativas que você possa apoiar durante a rotina da casa, considerando todos.

Dividir as responsabilidades é importante, as crianças têm pais e mães e contam com todos! É importante ter a sua porção de responsabilidade na criação.

Os limites sempre serão necessários para os filhos. Não podemos fugir desses por ocasião da pandemia. Rotinas mantidas, horários para dormir e acordar ajudam no processo. Estabelecer as responsabilidades de todos no ambiente pode ajudar também.

Estamos em casa, mas pensem… as pausas são importantes. Estabelecer um horário livre para as crianças só fará bem para o conjunto.

Reconhecer os comportamentos positivos de sua criança e usar isso em favor de estabelecer novos comportamentos adequados pode ser muito recompensador para o todo. Recompense sua criança diariamente e se beneficie desse processo.

A Dra. Cronsell também notou uma crescente cultura de medo em torno dos consultórios médicos e aconselha as famílias a consultarem seus médicos ao decidirem procurar atendimento médico ou não. Ela diz que é particularmente importante que os pais continuem buscando cuidados de rotina (como imunizações) para seus filhos, a fim de evitar o surgimento de outra epidemia.

Adequar a rotina, tornar o cotidiano menos complicado, adotar uma educação positiva e práticas comportamentais na convivência familiar, não parece simples para alguns, mas não custa tentar!

 

Por Sandra Paro

Crianças autistas podem se comportar de maneira a sobrecarregar a família e uma família consumida por esses comportamentos pode não enxergar exatamente a resposta ao comportamento.

São muitos os comportamentos relatados por familiares que podem ser corriqueiros no ambiente familiar e que, muitas vezes, merecem orientação de um profissional para que a família possa intervir no momento em que o comportamento ocorre e modificar de forma correta esse comportamento.

Uma das questões pelas quais a ciência ABA é recomendada para o tratamento de crianças no espectro é que a mesma funciona por que é intensiva, a pesquisadora Marta Hubner menciona que “na área do TEA, a ABA é a terapia comportamental que funciona porque é intensiva, sistemática e ensina habilidades. O autismo não é curável, mas é educável”. Assim sendo, ABA tornou-se a “queridinha” dos especialistas e recebe destaque considerável pela Organização Mundial de SaúdeMinistério da Saúde do Brasil ; não só por isso, mas também por ter sua eficácia comprovada, diferentemente de outras aplicadas no campo.

Os profissionais capacitados em ABA, recebem treinamento e são capacitados para interferir no momento em que comportamentos desafiadores ocorrem, mas não é o tempo todo que a sua criança está com o profissional e pode ser que exatamente quando ela não está, que esses comportamentos ocorram. O que os pais devem fazer?

Os comportamentos desafiadores podem ser repetitivos, ou uma perda completa de controle sobre um comportamento: os chamados colapsos, ou vistos por leigos como “birras”, mas esses não são os únicos, algumas crianças autistas podem ser física ou verbalmente agressivas, daí é quando o comportamento pode ser prejudicial para si ou para outras pessoas. Apesar de considerarmos o fato de que as crianças autistas são diferentes, alguns comportamentos descritos aqui podem ser identificados por muitos pais. A questão é: por que esses comportamentos acontecem?

A comunicação precária ou a total falta dela é uma das dificuldades que podem afetar o comportamento, mas uma peculiaridade (que sempre deve ser observada e relatada pelos pais) pode ser a alavanca de um ou mais comportamentos que poderão (se não forem controlados adequadamente) escalar (aumentar de intensidade ou frequência), são eles:

– ser sensível a coisas como luzes brilhantes ou barulhos altos;

– ansiedade, em especial com as mudanças de rotina;

– não entender o que está acontecendo ao seu redor;

– sentir-se desconfortável ou com dor.

Geralmente são comportamentos que devem ser identificados e que não são culpa de sua criança.

O comportamento autoestimulante “Stimming” é um tipo de comportamento repetitivo. Inclue: balançar, pular, girar, bater a cabeça, repetir palavras ou sons, ficar olhando para luzes ou objetos girando. Geralmente, é um comportamento inofensivo.

Já os colapsos são geralmente causados por uma perda completa de controle, quando as crianças estão sobrecarregadas. A principal indicação é manter a criança segura durante essa ocorrência. Nem sempre é possível evitar colapsos, mas podemos tentar preveni-los ou controlá-los.

Quando há estímulos demais em um ambiente, os colapsos podem ocorrer, nesses casos eliminamos luzes brilhantes do ambiente, deixamos, quando a criança gosta e permite, fones de ouvido com música relaxante e, principalmente, planejamos com antecedência qualquer mudança na rotina.

Quando os pais, a família, ainda estão aprendendo, é muito útil manter um diário registrando os principais acontecimentos e ver se é possível detectar algum gatilho de colapso. É uma boa maneira de conhecer melhor a sua criança e de prevenir esses comportamentos.

Se, sozinho, você não conseguir identificar o gatilho, peça ajuda ao psicólogo comportamental da sua criança, fale com a equipe que atende o seu filho, a comunicação com os profissionais pode ajudar muito, eles poderão orientá-lo como agir na próxima oportunidade, treinado, você terá como agir antes que esses comportamentos desafiadores ocorram.